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Rita Farinha (Jan. 2008)

OBRAS

DE

J. B. DE A. GARRETT.

IX.

(SEGUNDO DAS VIAGENS.)

VIAGENS NA MINHA TERRA

POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.

II.

LISBOA
NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
1846.

VIAGENS NA MINHA TERRA.

CAPITULO XXVI.

Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de old-sack sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o auctor á sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.--De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem, e que feito será de Joanninha.

Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de viagem. Alli, sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua história, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella civilização pasmosa.

E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!.. Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa satyra, creio que a nona do L. I.,

Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,
Nescio quid meditans nugarum...

Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o pé ao papa. Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma...

E não é preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a que Duarte Nunes menos estragou...

O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas venerandas e deliciosas sagas portuguezas... Em ponto historico pouco mais eram do que sagas, verdade seja, mas como taes, lindas. E o Duarte Nunes, que era um pobre grammaticão sem gôsto nem graça, foi-se ás filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma história, tendo apenas destruido um poema. Ficámos sem Nibelungen, podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim.

Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedeça á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glória da benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em que, além da porcaria e mau-cheiro, não ha perigo nenhum senão o de rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que imaginar conspirações, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar para as Lamas á sua vontade. Mas emfim ca não ha d'outros nem haverá tam cedo, graças ao muito que agora, diz que, se cuida nos interêsses materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica: verá se não é outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos e tam successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz systema que nos rege, ainda assim mesmo não ve erguer-se deante de seus olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se não ouve fallar as pedras, bradar as inscripções, levantar-se as estátuas dos tumulos; e reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas edades maravilhosas!

Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. Nunca tinha intendido Shakspeare em quanto o não li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um carvalho secular, á luz d'aquelle sol baço e branco do nublado ceo d'Albion... ou á noite com os pés no fender, a chaleira a ferver no fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do old sack; em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de cobre brunido projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, de que os poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de Banco, bruxas de Mackbeth, e até a rotunda pansa e o arrastante espadagão do meu particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legítimas consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras, dos poltrões pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os atura em tendo as costas quentes.

Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es maior homem que Sancho Pança. Creio que não. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens. Quando nossos avós renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e invocaram a San' Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.

Este importante ponto da nossa história, da demissão de San'Thiago e da vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu homem-de-ferro--ésta grande descoberta archeologica que tanta coisa moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli os antigos exemplares: que é a minha doutrina.

Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez legítimo e cru, virgem de toda a corrupção continental; calça de ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na cova-do-ladrão. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao Pére-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido muito menos excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. Não é nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido, bradando por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria identificar com o seu modêlo, purificar a sua paixão, ser emfim um completo--ou um incompleto Abeillard.

Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sôbretudo desde que dei a minha demissão de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me succedeu o outro dia. Tinha estado ás voltas com o meu Bentham, que é um grande homem por fim de contas o tal quaker, e são grandes livros os que elle escreveu: cançou-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a janella. As minhas janellas agora são as primeiras janellas de Lisboa, dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans d'hynverno, como as não ha senão em Lisboa. Abri os Lusiadas á ventura, deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias

E ja no porto da inclita Ulyssea...

Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está em monumento-caricatura da nossa glória naval... E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a tôrre de Belem ao longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez Portugal.

Tal fôrça deu o prestigio da scena ás imagens que aquelles versos evocavam!

Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o ministro da marinha que ia a bórdo.

Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas camelias.

Andei tres dias com odio á lettra-redonda.

Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos capitulos nos temos demorado?

Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou contada nos proprios sitios em que se passou, tem outra graça e outra fôrça; vem para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a escrever para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.

Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as mulinhas pastando na relva, os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as últimas horas de uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem percursora da noite.

Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham as mulinhas e montemos. Picar para Santarem, que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques nos espera um bom jantar d'amigo--e não é so a vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos austero e muito mais risonho.

--'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez a amavel leitora.

--'Não, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta: 'não, minha senhora, a historia não acabou, quasi se póde dizer que ainda ella agora começa; mas houve mutação de scena. Vamos a Santarem, que lá se passa o segundo acto.'

CAPITULO XXVII.

Chegada a Santarem.--Olivaes de Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria que não é para os olhos.--Modo de medir os versos da biblia.--Architectura pedante do seculo XVII.--Entrada na Alcáçova.

Eram as últimas horas do dia quando chegámos ao princípio da calçada que leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as vizinhanças de uma grande povoação descahida e desamparada. O mais bello comtudo de seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possue a nobre villa, não lh'o destruiram de todo; são os seus olivaes. Os olivaes de Santarem cuja riqueza e formosura proverbial é uma das nossas crenças populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem lá estão ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no murmurio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos...

Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem é ainda um monumento.

Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e austeridade aquella religião dos bosques, tam sagrada para as nações do norte. Os olivaes de Santarem são excepção: ha muito pouco entre nós o culto das árvores.

Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira--eu alvoraçado e impaciente por me achar face a face com aquella profusão de monumentos e de ruinas que a imaginação me tinha figurado e que ora temia, ora desejava comparar com a realidade.

Chegámos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa está deante de mim. Não me inganou a imaginação... grandiosa e magnífica scena!

Fóra-de-villa é um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema romantico; ao primeiro aspecto, áquella hora tardía e de pouca luz, é de um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem aos lados d'aquella immensa praça, em que a vista dos olhos não acha symetria alguma; mas sente-se n'alma. É como o rhytmo e medição dos grandes versos biblicos que se não cadenceiam por pés nem por sylabas, mas cahem certos no espirito e na audição interior com uma regularidade admiravel.

E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande metropole de um povo extincto, de uma nação que foi poderosa e celebrada mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas construcções gigantescas.

Á esquerda o immenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas, depois o de San'Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto portuguez--seja ditto sem irreverencia á memoria de San'Frei Gil que, é verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande bruxo.--Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aopé as baixas arcadas gothicas de San'Francisco... de cujo último guardião, o austero Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho ainda para te contar! Á direita o grandioso edificio philippino, perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto o seu genero póde ser, das construcções jesuiticas...

Não ha alma, não ha genio, não ha espirito n'aquellas massas pesadas, sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impõe, uma solidez travada, uma symetria de calculo, umas proporções frias, mas bem assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do seculo e do instituto que tanto o characterizou.

Não são as fortes crenças da meia-edade que se elevam no arco agudo da ogiva; não é a relaxação florída do seculo quinze e desesseis que ja vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que acorda; não, aqui a renascença triumphou, e depois de triumphar, degenerou. É a inquisição, são os Jesuitas, são os Philippes, é a reacção catholica edificando templos para que se creia e se ore, não porque se crê e se ora.

Até aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a expressão da idea popular, agora são a fórmula do pensamento governativo.

Alli estão--olhae para elles--defronte uns dos outros, os monumentos das duas religiões, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que os livros, que os escriptos, que as tradições, o pensamento das edades que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam.

Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra é o resto ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unhão.

Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnífica é a entrada, tam mesquinho é agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio.

As egrejas quasi todas porêm, as muralhas e os bastiões, algumas das portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante da physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.

Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca está a curiosa tôrre das Cabaças, a velha egreja de San'João do Alporão. Ámanhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos á Alcaçova!

Entrámos a porta da antiga cidadella.--Que espantosa e desgraciosa confusão de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! Não ha ruas, não ha caminhos, é um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é aopé mesmo da famosa e historica egreja de Sancta Maria da Alcaçova.--Hade custar a achar em tanta confusão.

CAPITULO XXVIII.

Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alcaçova.--Stylo da architectura nacional perdido.--O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-publico de Lisboa.--O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaçova, de manhan.--É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.--Introducção do Fausto.--Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos dialectos romanos.

Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achámo-la emfim a egreja de Sancta Maria d'Alcaçova. Achámos, não é exacto: ao menos eu, por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fôsse ella quando m'a mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma architectura, sem nenhum gôsto! risco, execução e trabalho de um mestre pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz! É impossivel.

Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaçova foi passando por successivos reparos e transformações, até que chegou a ésta miseria.

Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde o meio do seculo passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal modo o fio de todas as tradições da architectura nacional, que na Europa, no mundo todo talvez se não ache um paiz onde, a par de tam bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam ridiculas e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha um seculo se fazem em Portugal.

Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos é que este pessimo stylo, ésta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e escandaliza.

Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo renascença da Conceição-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geço com que estão mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa sé.

Não se póde cahir mais baixo em architectura do que nós cahimos quando, depois que o marquez de Pombal nos traduziu, em vulgar e arrastada prosa, os rococós de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram florídos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando presumpções de classico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do passeio-público!

Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaçova tambem; entremos nos palacios de D. Affonso Henriques.

Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hãode ser. Por onde se entra?

Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos annos, no que parece muro de um quintal ou de um páteo.

É comeffeito aqui; apeemo'-nos.

Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.

Notavel combinação do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e adhesão ás fórmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais insignes d'aquella era de prodigios!

Entrámos na pequena horta em fórma de claustro que une a antiga casa dos reis com a sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: a parede oriental da egreja é o muro do quintal de um lado, mas as communicações foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou assim perpetuamente do templo.

Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras, aquella pequena cêrca, apezar dos muitos canteiros e alegretes de alvenaria com que está moirescamente intulhada, é amena e graciosa á vista.

Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa.

O palacio de Affonso Henriques está como a sua capella: nem o mais leve, nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli pela bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais nada...

E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as demolições, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!

Vamos a jantar.

Comêmos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura, fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo'-nos deitar.

Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei da cama, fui á janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.

No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, está o socegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto ás margens, d'onde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem. D'alêm do rio, com os pés no pinque nateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e as memorias romanescas do seu alfageme.

Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a imaginação tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes. Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se succedem umas ás outras.

Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!..

Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis versos da introducção do Fausto:

Resurgis outra vez, vagas figuras,
Vacillantes imagens que á turbada
Vista accudieis d'antes. E heide agora
Retter-vos firme? Sinto eu ainda
O coração propenso a illusões d'essas?
E appertais tanto!... Pois embora! seja:
Dominae, ja que em nevoa e vapor leve
Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio
Juvenilmente trépido agitar-se
Co'a maga exhalação que vos circunda.
Trazeis-me a imagem de ditosos dias,
E d'ahi se ergue muita sombra amada:
Como um velho cantar meio-esquecido,
Véem os primeiros simplices amores
E a amizade com elles. Reverdece
A mágoa, lamentando o errado curso
Dos labyrintos da perdida vida;
E me está nomeando os que trahidos
Em horas bellas por fallaz ventura
Antes de mim na estrada se sumiram.
..................................
..................................

Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha infeliz traducção: fiel é ella, mas não tem outro merito. Quem póde traduzir taes versos, quem de uma lingua tam vasta e livre hade passá-los para os nossos appertados e severos dialectos romanos?[1]

CAPITULO XXIX.

Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?

Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio.

Infeliz do que chegou a esse estado!

Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.

Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver activamente, cansa-a e consomme-a.

Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista do Tejo e das suas margens deante dos olhos.

Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que d'outro modo não sei escrever.

Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..

Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade, ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.

So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão; porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.

Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal. Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não extendesse para apagar as memorias da creatura.

Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.

Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em Santarem.

As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem, ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.

Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.

Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de romanos e celtas.

Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances populares. Ha um de Sancta Iria.

Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria das legendas monasticas?

A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.[2]

Stando eu á janella co'a minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;

Passa um cavalleiro, pedia pousada;
Meu pae lh'a negou: quanto me custava!

--'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada... Senhor pae, não digam tal da nossa casa,

Que a um cavalleiro que pede pousada
Se fecha ésta porta á noite cerrada.'

Roguei e pedi--muito lhe pezava!
Mas eu tanto fiz que porfim deixava.

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.

Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.

Poucas as pallavras, que mal me fallava,
Mas eu bem sentia que elle me mirava.

Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.

Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, n'ella se deitava.

Dei-lhe as boas noites, não me replicava:
Tam má cortezia nunca a vi usada!

Lá por meia noite que me eu suffocava,
Sinto que me levam co'a bôcca tapada...

Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre á desfilada.

Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
Callei-me e chorei--elle não fallava.

D'alli muito longe que me perguntava
Eu na minha terra como me chamava.

--'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]

Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me attentava...

Horas esquecidas commigo luctava;
Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange... alli me matava,
Abriu uma cova onde me interrava.

No fim de sette annos passa o cavalleiro,
Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.

--'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.'

--'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
Que me degollaste que nem um cordeiro.'

Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.

Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações ecclesiasticas.

O caso é grave, fique para novo capitulo.

CAPITULO XXX.

Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular.

A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem, donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.

É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.

Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do namorado Britaldo.

Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia acabado.

Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella Iria.

Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer todos os signaes da mais apparente maternidade.

Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.

Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.

Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta resiste a tudo, forte na sua virtude.

Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.

Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.

Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio, que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua; e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.

Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á maravilha pelas mãos dos anjos.

Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta, mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram todos para a sua terra.

As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto sepulchro.

Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo; quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.

O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima d'ellas.

Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.

Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o anno até começarem as cheias.

Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.

A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples, conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é, dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.

E acabou a historia.

Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma desprezar.

É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente se mostram e se deixam conhecer.

A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até agora.

A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas chamou romance em endechas. Eu, adoptando para elle, mais que para a fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito syllabas sôbre si.

Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes, em toda a parte.

CAPITULO XXXI.

Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.

Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.

A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.

Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em prosa. Morrer, não morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica escrupulo.

Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais fashionavel d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.

E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta designação de mosarabe para characterizar e classificar o genero architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?

De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas? Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos mysterios da edade-média.

Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande antiguidade. Não me fez esse effeito a mim.

Chegámos á porta do Sol; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista. É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto rasteiro, meio frutex meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os moiros faziam da planta para esse fim.

Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico. Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos, póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.

Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho saudades--o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?

Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e da sua familia, nos disse:

'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta historia.'

'Seja' respondemos nós.

Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades materiaes em que vivemos.

Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.

Escuta.

CAPITULO XXXII.

Tornámos á historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O infermeiro.--Georgina.

'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do último capítulo. Mas não basta que escute, é preciso que tenha a bondade de se recordar do que ouviu no capitulo XXV e da situação em que ahi deixámos os dous primos, Carlos e Joanninha.

N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se póde deslindar e seguir em tam imbaraçada meada.

Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito quanto eu podér.

Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes, duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.

N'essa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movimento de guerra reinava nos postos dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos mezes succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos combates de Pernes e de Almoster, que não foram decisivos logo, mas que tanto appressaram o termo da contenda.

Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi, chegou, recebeu as instrucções que lhe deram, e voltou mais satisfeito, mais tranquillo.

Tractava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que ainda não abençoou a morte que viu deante de si, o que a não invocou ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que é mais desesperado, como unica sahida de suas fataes perplexidades.

Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando occorrem, não ha exaggeração nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que elles.

Oh! e se a morte que se contempla é de honra e glória, se o enthusiasmo, tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o coração do homem á sublime abnegação de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil na sua natureza--oh então a morte parece um triumpho, uma bemaventurança porcerto!

Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de artista que se compraz no último acabamento de um trabalho predilecto.

O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha começou antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar das espingardas, e pelo trovejar dos canhões.

Combateu-se larga e incarniçadamente--como entre irmãos que se odeiam de todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza!

O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem conhecido--e charecteristica então, se via claramente ser do exército constitucional.

Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma especie de tarimba sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a sua vez foi examinado e pençado como os outros. Não dava signal de padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de febre; não proferia uma syllaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda que apertava contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.

Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. Não sería largo, mas foi profundo o seu dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada elegancia do infermeiro que o velava.

O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma bella mulher de estatura não acima de ordinaria mas nem uma linha menos, involvida nas amplissimas pregas de um longo roupão de seda d'aquella acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz scabieuse; a cabeça toucada de finissima Bruxellas, com uns laços de preto e côr de granada que realçavam a transparencia das rendas, a infinita graça dos longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão mas bello, bello, quanto póde ser bello um rosto em que pouco d'alma se reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entibía e modera a energia do sentimento que não é menos profundo talvez, mas certamente se expande menos.

De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mão direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella mulher estava alli como a estátua da dor e da anxiedade. A uma porta interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em pé, os braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabeça, estava um frade velho, alto mas curvado do pêso dos annos ou dos soffrimentos.

O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, mas visivelmente não queria ser visto n'essa occupação, porque ao menor estremecimento do doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.

Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e sublime.

Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affêrro o relicario ou talisman, o que quer que era que não queria desprender de seu coração. A bella infermeira beijava de vez em quando aquella mão tenaz que estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve contacto d'esses labios delicados.

A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.

O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e descompassado do infêrmo.

Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: 'Oh Georgina, Georgina, I love you still.'--(Georgina, Georgina, eu ainda te amo).

Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no coração e que ás vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces de uma alvura pallida e mortal.

Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto angelico d'essa mulher.

Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem de voz nem de gesto: fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfôrço nem impeto, por um declive natural e facil.

--'Onde estou eu, Georgina?'

--'Nos meus braços.'

--'Que me succedeu?'

--'Que não podes ser feliz senão n'elles: bem sabes.'

--'Sei... devia saber.'

--'Hasde sabe-lo agora. O passado...'

--'O passado! qual?'

--'O passado deixou de existir.'

--'E o futuro?'

--'Eu não creio no futuro.'

--'Porquê?'

--'Porque tu me disseste que não cresse.'

--'Eu!.. Eu sou um...'

--'Um homem.'

--'Oh!'

--'Basta e descança. Amanhan fallaremos.'

--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... não me doía.'

--'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'

--'Não posso. Que casa é ésta?'

--'San'Francisco de Santarem.'

--'Deus de misericordia!'

--'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.'

--'Tu!--E tu aqui, como?'

--'Vim buscar-te, e achei-te assim.'

--'Georgina!'

--'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?'

--'Vê: a medalha com o teu cabello.'

--'Então amas-me tu ainda?'

--'Se te amo! Como no primeiro...'

--'Não mintas, Carlos... E dorme.'

--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha gente?'

--'A tua gente está salva.'

--'Aonde?'

--'Aqui mesmo, em Santarem.'

--'Quero... não quero... Oh sim, quero mas é morrer. Tende misericordia de mim, meu Deus!'

--'Socega, Carlos.'

Mas Carlos não socegava: immudeceu porque a torrente de seus pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe imbargavam a voz, e o quebramento das fôrças lhe tolhia os movimentos do corpo; mas o espirito inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.

Á fôrça de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais tranquilla; e pela manhan o doente não dava cuidado ao facultativo que o veio ver.

Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de lhe não responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh! amava-o como se não ama senão uma vez n'este mundo.

Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina pôde dizer-lhe um dia:

--'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, vou restituir-te aos teus.'

--'Os meus!'

--'Os teus. Tua avó, tua prima...'

--'Joaninha! oh! Joanninha...'

--'Tua avó que tambem tem estado a morrer mas que emfim está escapa, ignora que tu estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.'

--'Ah!'

--'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma nem a outra até que tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu...'

--'Tu!'

--'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.'

--'Georgina!'

--'Carlos!'

--'Tu ja me não amas?'

--'Não.'

Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos estorcia-se debaixo de uma compressão horrivel e incapaz de se descrever.

CAPITULO XXXIII.

Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra vez. Ecce iterum Crispinus; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.

--'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade, nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado, que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'

--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que mais o desesperava:--'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens. O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me muito...'

--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'

--'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez nenhum.--Não quero perder ésta última illusão... ja não tenho outra... Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu... oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio, este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde consagrar licitamente.

Bem castigada estou: mereci-o.'

--'Georgina, Georgina!'

--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva dedicação de todo o meu ser... dize-o tu.'

--'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es...'

--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não ama.'

--'Não, certo, não.'

--'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam felizes como nós nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam: não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego: o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me, vivia de esperanças... triste viver mas doce! Emfim vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que não eram menos ternas nem menos apaixonadas...'

--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'