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Rita Farinha (Fev. 2008)
BIBLIOTHECA
DE
CLASSICOS PORTUGUEZES
PROPRIETARIO E FUNDADOR
MELLO D'AZEVEDO
Bibliotheca de Classicos Portuguezes
Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
CHRONICA
DE
EL-REI D. AFFONSO V
POR
Ruy de Pina
VOL. III
ESCRIPTORIO
147--Rua dos Retrozeiros--147
LISBOA
1902
CAPITULO CXLI
De como se fez em Alcacere a coiraça para defensão e segurança da villa, e como D. Duarte, capitão, se houvera de perder
El-rei entendeu logo no fazimento da coiraça d'Alcacere, por cuja mingua quando tornou sobr'ella de Ceuta a não pôde soccorrer nem bastecer como quizera; porque era mais afastada do mar, do que cumpria para navios sem empedimento e contradição dos de fóra a poderem prover. E tanta ordem e diligencia se poz n'isso ácerca da pedra cantaria e cal, e madeira, e officiaes, e cousas a ella necessarias, e assi a gente de guarnição que tudo defendesse, que com tudo prestes e enviado a Alcacere, a dita coiraça se começou logo á segunda-feira de Ramos XXII dias de Março do anno de mil e quatrocentos cincoenta e nove. Na qual obra D. Duarte, de noite e de dia, para bom exemplo de todos assi servia e melhor que qualquer outro pobre serviçal que hi andasse.
E em fim por fallecimento de cal; porque a obra se fundou maior e mais forte do que primeiro cuidaram, a dita coiraça não se acabou senão depois do S. João do dito anno, e foi ao tempo que D. Duarte era já bem certificado dos ajuntamentos e apurações e convocações que El Rei de Fez em suas terras e nas alheias fazia para vir outra vez sobr'elle como ficara.
E porque para execução do proposito dos mouros era grande impedimento a coiraça que se fazia de que eram já bem avisados, por deterem e impedirem a obra com dano e mortes dos officiaes que a lavravam, acordaram de enviar para isso secretamente certos alcaides, com mil e quinhentos de cavallo, e outra muita gente de pé, para que dessem n'elles e trabalhassem por desfazer a dita obra.
E com isto, porque D. Duarte com sua gente não leixava d'entrar e fazer grandes cavalgadas e estragos nas terras dos mouros, acertou-se que um dia desavisado do ardil dos alcaides, determinou entrar com a mais gente que nunca entrara. E estando á noite dois veladores praticando sobre o muro, aconteceu que por máo avisamento e pouco resguardo d'elles, com vozes altas um descobriu ao outro a entrada de D. Duarte, declarando logo por onde havia d'entrar, e os lugares a que havia d'ir, e tudo assi apontado como que estivera á determinação do caso. E acertou-se que um mouro almograve, que da lingoa dos christãos tinha bom conhecimento e era mui ousado, vindo-se de noite lançar ao pé da barreira por escuta, ouvio toda a pratica d'estes, com que apressadamente logo partio, e foi logo avisar umas aldeias, de que tomaram um mouro mais despachado, que indo com grande trigança dar aviso a Tanger, topou de recontro com os mesmos alcaides que vinham sobre a coiraça, aos quaes o messageiro contou o caso sobre que ia, havendo que era remedio que lhes Deus a tal tempo enviava, e elles mui alegres com tal nova lhe prometeram grandes honras e acrescentamentos; porque lhes pareceu que leixariam entrar D. Duarte, e sem alguma fadiga o atalhariam e tomariam como quizessem, e assi sem os trabalhos, mortes e despezas que se lhe aparelhavam, não sómente impediriam a coiraça, mas cobrariam a villa em que não podia ficar gente que a defendesse.
E vieram-se os alcaides ao logar d'Anexanuz onde estava um christão captivo, natural da Villa de Lagos, a que chamavam o Talheiro, o qual tinha muita amizade e pratica com um mouro, cujo nome era Azmede, que já fôra em Tavila captivo, e sabendo bem o Talheiro o ardil e determinação dos alcaides, pela qual a perdição de D. Duarte e da villa d'Alcacere com toda a gente se não podia escusar, doendo-se d'isso como bom christão e leal portuguez, tanto aperfiou com Azmede e tantas esperanças lhe pôs na bondade e verdade dos christãos para sua honra e proveito, que o houve de commover que de todo o que era concertado logo aquella noite fosse como foi avisar D. Duarte. O qual estando para partir e vendo tal aviso e sendo certificado por Antão Vaz, alfaqueque, que o mouro era homem de credito e amigo dos christãos, pôs os giolhos em terra, e as mãos alevantadas ao ceo deu muitas graças a Deus, e ao mouro deu logo e prometteu e fez ao diante muito bem.
E ao outro dia mandou desaperceber os fidalgos e toda a gente que para a entrada estavam já todos prestes, que por isso ficaram tristes e muito mais descontentes de D. Duarte, e mostrando não ser menos irados contra o mouro, assacando-lhe que por evitar o dano que a seus parentes estava aparelhado, mais que por fazer bem a D. Duarte, se movera a tal aviso, e uns o ameaçavam com a forca, e outros com o lume para o queimarem, mas o mouro confiado no que certo sabia, tudo soffria rindo, dizendo que cedo lhe dariam o contrario.
E sendo o capitão por elle avisado dos lugares em que as cilladas haviam de jazer, mandou logo pela manhã descubrir a primeira, estando com toda a outra gente a recado e percebido; os mouros como viram os descobridores entenderam a verdade, e que tal descobrimento procedera d'algum aviso que os christãos d'elles houveram, e que por isso não sairam da villa, nem ousaram entrar em sua terra como tinham ordenado, e sairam logo d'elles quatrocentos de cavallo em cavallos armados e arreios, gente especial e mui concertada. Sahiu D. Duarte com até cento e vinte de cavallo a lhes resistir, em especial a recolher os descobridores que tinha enviados que vinham mui perseguidos, e n'isto se travou de uma parte e da outra mui crua peleja, em que D. Duarte tanto apertou com os mouros que os fez fugir, em que morreram alguns d'elles, todos homens entr'elles de boa estima, e ao seguimento d'estes sahiu a outra cillada maior em socorro dos primeiros que maliciosamente mostravam ir fogindo por tirarem os christãos fóra, e fizeram todos uma volta sobre os christãos, que por não poderem resistir a tamanha força lhe deram as costas, e no encalço que foi curto, mataram dois e feriram muitos.
E quiz Deus que na primeira esporada que D. Duarte n'elles deu lhe quebraram as cabeçadas do cavallo, e em lh'as corregerem se deteve e mandou deter a gente sua algum espaço, que deu causa que o encalço da volta que os mouros sobre os christãos fizeram fosse assi curta, que quasi os acharam á sombra dos muros a que com sua segurança se acolheram; porque d'outra maneira segundo os mouros vinham azedos, e com tanta sua avantagem, fôra sem duvida para os christãos grande perigo.
E n'este dia se lançou um moço christão com os mouros, a que descobrio o aviso d'Azmede que deu causa a se elle vir de todo para Alcacere, onde sendo mouro deu aviamento a muita guerra e damno de sua propria terra, e este se chamou depois Mafamede de Alcacere, a que El-Rei D. Affonso e depois El-Rei D. João seu filho por seus serviços fizeram muita mercê.
CAPITULO CXLII
De como a villa d'Alcacere foi de segunda vez cercada por El-Rei de Fez, e do que se passou n'este segundo cerco até que se alevantou
Era D. Duarte de muitas partes avisado como El-Rei de Fez se aparelhava grandemente para no começo do mez de Julho vir sobre a villa, e sendo logo sobr'isso certificado que era já em Tangere, começou de concertar e perceber suas cousas como para taes hospedes convinha.
E a uma segunda feira, dois dias de Julho do dito anno de mil e quatrocentos e cincoenta e nove, apareceu El-Rei de Fez sobre a villa com infindo poder de gente, e nações mui desvairadas, e com carriagens d'alimarias espantosas, que cobriam toda a terra.
E nos dias passados tinha D. Duarte enviado pedir a El-Rei que lhe mandasse trazer sua mulher D. Isabel de Castro, e seus filhos que eram em Portugal, e como quer que segundo os recados que tinha havia muito tempo que esperava por ella, acertou-se que em El-Rei de Fez e os outros Marins e senhores começando de cercar Alcacere, a náo em que ella vinha surgiu sobre o porto. E como D. Duarte houve d'ella conhecimento, determinou com gente e fustas e bateis que para isso pôs em mui segura ordenança, de a recolher, e elle a cavallo com outros, andaram na praia resistindo aos mouros, até que muitos fidalgos a pé segura e honradamente a meteram pelas portas da coiraça.
E certo não foi sem causa acertar ella tal dia em que chegasse; porque segundo era de nobre sangue e de muitas bondades e virtudes, bem merecia que em sua chegada a recebessem tamanhos reis e senhores dos mouros como alli eram.
Desceu-se D. Duarte e levou sua mulher á egreja, onde em vigilia e por devoção dormio aquella noite, e ao outro dia a meteu em um cubello do castello, de que podia vêr os combates e afrontas da villa.
E com a ida de D. Isabel a Alcacere foi a gente toda mui leda, e receberam muito esforço e ousadia, assi pelo repairo que os feridos e doentes em suas curas d'ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de pelejar; porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas d'homens honrados, que guardada em todo sua honra e honestidade, sabiam bem fallar e tratar os homens como mereciam.
D. Duarte como aquelle a que em seus feitos não fallecia grande devoção e esforço, depois de se encommendar a Deos com muitas lagrimas e palavras de bom christão e singular capitão de sua fé, fallou logo com muita prudencia e segurança a todolos fidalgos e pessoas principaes da villa, repartindo-lhe logo com muita alegria e despejo as estancias e guardas que cada um havia de ter, e avisando-os em todo como para a necessidade presente cumpria, em que prometia honra e victoria.
El-Rei de Fez e seu Marim e alcaides ordenaram seus combates á villa em torno, providos de muitas e grossas artelharias, e d'espingardeiros e besteiros sem conto, e d'escalas e mantas, e todo em grande cumprimento; porque em tanto cargo e estima tomou o cobrar d'aquella villa d'este segundo cerco, como todo o reino de cuja privação foi dos mouros ameaçado, se d'esta vez a não tomasse. E d'alguns combates que os mouros deram á villa e á coiraça juntamente, elles foram dos christãos com tanto seu estrago e damno escramentados, que d'hi em diante já refusavam e não se queriam chegar como sohiam. Dizendo a El Rei pela continua e grande mortindade dos seus que os não mandasse assi chegar ao combate; porque elle bem poderia fazer com seu grande poder, quando quizesse, outra villa dez vezes maior que aquella, mas que fazer elle e renovar outros tantos vassallos mouros quantos alli perdia não podia, cá era officio que sómente pertencia a Deus. E com isto punham todos seu esforço e esperança nas bombardas, que de dia e de noite nunca cessavam de lançar pedras.
Era El-Rei de Portugal em Lisboa ao tempo que d'este cerco foi avisado, para que com grande trigança mandou fazer prestes navios com gente, mantimentos e armas, em que foram muitos fidalgos e pessoas principaes do reino, alguns d'elles por especial percebimento, e os mais de suas livres e louvadas vontades, em que entravam pessoas de todas edades, cá os moços por ganhar e acrescentar honra, fugiam para este cerco, e dos velhos por conservação da ganhada algum não queria ficar.
No meio tempo do cerco chegaram ao arraial dos mouros as suas bombardas grossas, que por seu peso e grandeza e pela aspereza da terra faziam suas jornadas vagarosas, e em sua chegada não fizeram os mouros menos festa e alegrias que na sua Pascoa que então celebraram. Foram logo com grande presteza e alegria assentadas, e dos tiros primeiros que fizeram começaram nos muros e cubellos de fazer com sua furia tanto dano, que a muitos de dentro com receio de maior mal já se mudavam as côres; porque alguns cubellos foram em breve arrasados com os muros, que em todalas partes tremiam, e faziam conta que se elles sendo derribados não os defendessem, que a peleja de pessoas com pessoas tanto seria perigosa, quanto a gente e poder dos mouros era desegual. Mas D. Duarte, cujo coração, esforço e segurança, d'estes medos e d'outros maiores andava sempre priviligiado, a tudo soccorria e repairava logo com tão engenhosos remedios, que aos mouros enfraqueciam os corações, havendo que tão prestes e diligente repairo eram obras de Deus mais que dos homens. Especialmente porque claramente viam que a diligencia, trabalho e resistencia dos christãos lhes parecia sobre forças humanas. Pelas quaes cousas, e assi porque os mantimentos falleciam já aos mouros, houve no arraial dos mouros grande rumor de alevantarem o cerco, de que D. Duarte por mouros que na villa se lançavam foi certificado.
E D. Duarte e esses senhores e fidalgos que com elle eram, não fartos de muita honra e louvor que tinham ganhado, escreveram ao Marim apresentando-lhe com palavras assaz cortezes quão covardamente elle e seu Rei se tinham havido n'aquelle cerco, do qual não se deviam assi partir com tanto seu abatimento e deshonra, pedindo-lhe que avergonhados disto tornassem renovar os combates, para que ficavam alimpando as armas, que no sangue dos seus tinham já todas sujas.
El-Rei e o Marim mostrando ser d'esta carta mui anojados, responderam a D. Duarte com palavras de grande descortesia e muita villeza, reportando-se ao mal do palanque de Tangere, e que já fizeram ao Infante tio do seu Rei cavar e alimpar os cavallos, e que assi faria a elles, a quem D. Duarte largamente replicou, reprendendo como devia suas villezas e cobardia.
E finalmente El-Rei de Fez com todo seu arraial se alevantou de sobre a villa, dia de S. Bertholameu, XXIV dias d'Agosto de mil quatrocentos e cincoenta e nove.
Durou este segundo cerco d'Alcacere outros LIII dias como o primeiro. Foram lançadas na villa duas mil e quatrocentas e cincoenta e seis pedras grossas, foram mortos dos christãos até XXV, e dos mouros muitos, de que se não houve o numero certo. O que todo notificou logo D. Duarte a El-Rei, estando em Santarem, que por o caso deu a Deus muitas graças, e a elle muitos agardecimentos e louvores, e D. Duarte mandou logo para o reino a gente que não era em Alcacere necessaria.
CAPITULO CXLIII
Como D. Duarte foi feito conde de Vianna, e El-Rei quisera outra vez passar em Africa para que se percebeu
No mez d'Abril do anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta, por prazer e consentimento d'El-Rei leixou D. Duarte por capitão d'Alcacere Affonso Tellez, seu sobrinho, e se veiu a Lisboa onde achou El-Rei, que d'elle e de toda sua côrte foi grandemente e com muita honra recebido, e d'ali se foi El-Rei a Santarem, onde com solemne arenga de seus serviços e merecimentos, e com devida cerimonia o fez conde de Vianna de Caminha.
N'este anno no mez d'Agosto falleceu de febre em Thomar D. Affonso, marquez de Valença, filho maior do duque de Bragança, sem casar, de que ficou um filho natural, D. Affonso, que depois foi bispo d'Evora. E n'este tempo pelas praticas que El-Rei sempre tinha com o conde de Vianna sobre a guerra d'Africa, a que El-Rei sobre todalas cousas do mundo naturalmente era mais inclinado, desejando de a proseguir determinou passar a Ceuta com dois mil cavallos e gente de pé a elles conveniente, para d'alli como capitão, mais que como Rei fazer guerra aos mouros.
E tendo sobr'isso conselho foi de todolos principaes muito em contrairo aconselhado, em especial do Infante D. Fernando seu irmão, e do senhor D. Pedro, que sobre isso lhe enviaram conselhos para o caso mui excellentes, a que El-Rei não quiz dar credito, guiado já de seu apetito, inclinando-se á só opinião do marquez de Villa Viçosa, que sendo em tudo mui prudente, n'isto pareceu que desacordava. E tendo para isso feita muita custa, com fundamento de todavia passar, desistio da ida por causa de uma grande e perigosa doença de febre em que cahiu e esteve á morte.
E n'este anno de mil quatrocentas e sessenta, lastimado o reino todo das grandes e apetitosas despezas que El-Rei fazia, de que sua fazenda e as de seus vassallos sem causa necessaria se destruiam, em umas côrtes que em Lisboa sobr'isso se fizeram, lhe pediram que as temperasse e quizesse ter mão mais firme nas cousas da corôa; com que sostevesse seu estado como seus antecessores faziam, e não as dar com tanta soltura e sem necessidade como dava, que se contentasse arrecadar dos vassalos os antigos e velhos direitos, e não agravar seu povo com novos pedidos e imposições. E para o melhor poder fazer, lhe outorgaram cento e cincoenta mil dobras d'ouro, com que desempenhasse e pagasse as rendas da corôa, que por tenças e por casamentos, ou por outras dividas e obrigações tivesse dadas, com juramento que fez de nunca as mais dar, mas isto nem sómente aquelle anno em que se prometeu se manteve; porque na passagem em Africa que logo fez se desordenou tudo, e com muita mais soltura por mal da corôa real.
CAPITULO CXLIV
De como falleceu o Infante D. Anrique, e de seus feitos, bondades, e virtudes
E no mez de Novembro d'este anno falleceu em Sagres o Infante D. Anrique com sinaes e cumprimento de fiel christão, em edade de cincoenta e sete annos, cujo corpo foi logo soterrado na egreja da villa de Lagos.
E de hi no anno que vinha de mil e quatrocentos e sessenta e um, foram seus ossos levados ao mosteiro da Batalha por o Infante D. Fernando, que tinha adotado por filho, que foi por elles e os trouxe com grande honra e muita cerimonia ao dito mosteiro, onde El-Rei acompanhado de toda a nobre gente de Portugal e muitos prelados sahiu aos receber com solemne procissão, e lhe fizeram honradas exequias.
O Infante D. Anrique foi em tudo Principe tão perfeito, que não é razão que alguma de suas muitas e louvadas virtudes se especifiquem; porque seria mingoar nas outras todas, que d'elle como de uma fonte clara e perenal todas nasceram. Porém a que pareceu que em seus dias sobre todas abraçou, foi inteira obediencia e firme lealdade a El-Rei, e em seu coração houve sempre fervente amor e continua devoção para Deus, e uma singular humanidade e nobreza para os homens, e um vivo esforço nunca vencido com que em sua vida como magnanimo Principe e esforçado cavalleiro sempre emprehendeu arduas e mui excellentes empresas, especialmente contra inimigos da fé, por seu marivilhoso engenho e muita prudencia e grandeza de coração, e com innumeraveis gastos de suas rendas e fazenda, não receando infindos trabalhos, mortes, e perigos de seus criados e servidores, que muitas vezes via morrer e padecer, depois da tomada e descercos de Ceuta em que foi, mandou primeiramente navegar e descobrir pelo mar Occeano, onde se acharam logo e povoraram as ricas e fertiles ilhas da Madeira, que foram as primeiras que no mar Occeano estes reinos tiveram, e assi d'hi em diante outras muitas de que elles e a christandade toda muito bem e proveito recebem.
E assi o dito Infante como aconselhado e esforçado, já por divina inspiração movido a isso, com respeitos de magnanimo Principe e mui catolico christão, e como mui leal vassallo dos Reis e da corôa de Portugal, desejoso do acrescentamento, gloria, e louvor d'elles, suspirando pela santa, honrada e proveitosa conquista de Guiné, mandou logo pedir e suplicar ao Papa Martinho quinto, na Egreja de Roma presidente, que em nome de Deus cujo poder tinha, concedesse e fizesse á dita corôa e herdeiros d'ella para sempre, como com acordo e approvação do Sagrado Collegio dos Cardeaes fez e concedeu solemne e perpetua doação, e lhe deu o senhorio proprio de todo o que na costa do dito mar Occeano, nos mares a ella ajacentes dos marcos e cabos de Nam e do Bojador contra o meio dia e oriente por elles e por seus sobcessores, e por suas gentes pelos tempos em diante se achasse e descobrisse até os Indios inclusivamente. A qual doação e concessão do dito Papa Martinho depois o Papa Eugenio, e o Papa Nicoláo, e o Papa Sixto á suplicação d'El-Rei D. Affonso, e d'El-Rei D. João seu filho confirmaram e aprovaram com sua graça e poder, com muitas graças e benções e liberdades aos Reis de Portugal presentes e futuros que a proseguissem, e com grandes excumunhões, graves censuras e maldições a todolos christãos que em qualquer maneira, sem prazer e consentimento dos ditos Reis de Portugal contra ellas fossem, como nas Bulas Apostollicas que se d'isso concederam mais perfeita e cumpridamente se contém, as quaes sendo um divino favor e verdadeiro e ligitimo titulo para se a dita navegação, descobrimento e conquista navegar e proseguir o dito Infante logo primeiramente com o santo e virtuoso principio de tão aventurado fim a emprendeu e proseguiu.
E com espantosos principios e meios de que era prasmado e nunca foi vencido em sua vida, mandou adiante descobrir e tratar até a Serra Liôa com muito proveito do reino. E depois de sua morte em tempo d'El-Rei D. Affonso o quinto seu sobrinho, além do descobrimento do Infante se descobriu a mina do ouro, em que agora é a cidade de S. Jorge, que El-Rei D. João o segundo mandou novamente edificar, e assi se descobriu mais por El-Rei D. Affonso até o Cabo de Santa Caterina, e depois de seu fallecimento, como El-Rei D. João o segundo seu filho o sobcedeu, d'alli mandou por annos descobrir até dobrarem o Cabo de Boa Esperança, e seus descobridores chegaram até o Rio do Infante, e d'alli sendo seu proposito não cessar até descobrir a India, por sua doença e morte, que se logo seguiu, cessou seu descobrimento.
E como depois o sobcedeu e reinou após elle El-Rei D. Manuel o primeiro, nosso Senhor, como Principe que em tudo quiz herdar a benção, reaes costumes e claras façanhas de Reis e Principes tão gloriosos seus antecessores, por seu mandado e com seus capitães, navios e gentes por este caminho se desccobriram, trataram e navegaram, com grandes perigos e muitas difficuldades, e innumeraveis despezas outras novas ilhas e terras, e sobre tudo a Arabia e a Persia, e a India com todalas especiarias, pedrarias, minas, riquezas, e thesouros orientaes que hoje possue e tem com muita segurança e prosperidade, fazendo-se pacifico Senhor de muitos Reis e senhores que sua paz e senhorio compraram com ricos e cotedianos tributos, como em sua chronica fará menção, de que a elle e á real corôa d'estes seus reinos de Portugal e aos herdeiros d'ella, e a seus vassalos e naturaes se acrescentou, e com a graça de Deus cada vez acrescentará mais bem, maior honra, gloria, e louvor, e ricos, honestos e mui grandes proveitos, com os quaes pois seu principal fim e intento é servir a Deus e divulgar e exalçar sua santa Fé sempre, por isso seu grande poder será muito mais poderoso, e não sómente a elles este bem e proveito será reservado, mas ainda de suas mãos e por seu meio a christandade toda será participante, com que a fé de nosso senhor será por isso mais conhecida, louvada, e exalçada, e as seitas, idolatrias e forças dos imigos d'ella de todo minguadas e mui quebrantadas, e esta esperança não está de todo em a esperarmos; porque com prosperos e desejados effeitos tem ácerca d'isto muitas vezes respondido, como em seus proprios tempos e lugares melhor se dirá, que sempre se atribuiram á honra, memoria, louvor e merecimentos d'este virtuoso Principe e Infante D. Anrique, como a causa e primeiro inventor de tanto bem.
Foi mais o Infante nas roupas de seu corpo mui honesto e muito mais nas palavras de sua bocca, e por maior sua perfeição foi em sua vida sempre casto, e segundo o que se creu, virgem o comeu a terra, que dá piedosa esperança de salvação de sua alma.
CAPITULO CXLV
De como falleceu o duque de Bragança, e sobcedeu sua casa e herança o marquez de Villa Viçosa, e como D. Fernando seu filho passou em Africa, e de vinda foi feito conde de Guimarães
E no anno de mil e quatrocentos e sessenta e um falleceu D. Affonso, duque de Bragança, cuja casa e titulo e herança sobcedeu D. Fernando, marquez de Villa Viçosa, seu filho segundo; porque o marquez de Valença seu filho maior era já sem filhos legitimos fallecido como já disse.
E entre os filhos que este segundo duque tinha, o maior era D. Fernando, que por acrescentar em sua honra, tendo para a dita passagem dos cavallos feita muita despeza, pediu a El-Rei licença para se ir a Alcacere como foi no mez d'Abril do dito anno, com duzentos de cavallo e mil homens de pé, em que entraram muitos fidalgos e outra nobre gente da côrte. E d'Alcacere em companhia de D. Affonso de Vasconcellos, que depois foi conde de Penella, e do conde D. Duarte, a que o duque seu padre e elle tinham grande affeição, entraram muitas vezes em terra de mouros, e foram correr até ás portas da cidade de Tangere, onde se fizeram honrosos feitos d'armas, e de que trouxeram grande numero de captivos e mui grandes cavalgadas. E fizeram outras cousas, em que D. Fernando ganhou bom nome e muita honra, com a qual se tornou a estes reinos logo no mez de Junho seguinte. E El-Rei por seus serviços e merecimentos o fez primeiro conde de Guimarães, porque depois quando casou com a duqueza D. Isabel filha do Infante D. Fernando, por honra de tão honrado casamento foi em vida de seu padre feito e intitulado duque da mesma Villa de Guimarães.
CAPITULO CXLVI
De como falleceu a Infante D. Caterina, sendo já concertada para casar
N'este anno era tratado e concordado casamento entre a Infante D. Caterina, irmã d'El Rei, com D. Carlos, Principe de Navarra e d'Aragão; e porque o dito Principe falleceu, foi a dita Infante levada ao mosteiro de Santa Clara de Lisboa, e sendo concertado depois casamento entre ella e El-Rei D. Duarte de Inglaterra, ella adoeceu de febre, e com nome de mui honesta e virtuosa Princeza falleceu no mesmo mosteiro, e foi seu corpo trazido ao mosteiro de Santo Eloi de Lisboa, onde na capella da mão direita jaz mui honradamente sepultada.
CAPITULO CXLVII
De como foi a ida d'El-Rei em Africa com os dois mil de cavallo, e do escallamento de Tangere
E no anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta e dois, se principiou e ordenou a ida d'El-Rei em Africa, sobre o escalamento de Tangere, que foi n'esta maneira.
Havia n'este tempo em casa d'El-Rei Diogo de Bairros e João Falcão, homens mancebos e fidalgos, que desejosos d'acrescentar em suas honras pediram a El-Rei licença, e lh'a deu, para irem ao soldo que El-Rei de Fez então apregoara em seu reino contra outros mouros seus imigos e reveis, os quaes para melhor seu aviamento se passaram a Andaluzia pedir cartas ao duque de Medina Sidonia, com que o dito Rei de Fez tinha paz e mostrança de singular amizade.
E o duque com respeito de serviço d'El-Rei não vendo para isso sua carta se escusou, pelo qual conveiu a estes pedir a El-Rei que por sua carta lh'o encommendasse, e em tanto porque o conde de Viana acertou d'entrar de Alcacere em terra de mouros, foram estes com elle na entrada, onde por caso Diogo de Bairros topou um João d'Escalona, de Tarifa, que já em Tangere foram ambos captivos e em poder de um senhor. E praticando entre si sobre um cano que era nos muros da cidade aberto e sahia para fóra, se por elle haveria disposição de entrar n'ella gente: acharam que em alguma maneira seria possivel, e com isto tornando-se estes a casa do duque acharam cartas d'El-Rei, porque lhes revogou a licença e mandou que logo se tornassem á sua côrte, o que cumpriram, e acharam El-Rei em Cintra, onde a voltas da conta que lhe deram de sua jornada, tocaram na pratica do cano para se entrar Tangere, que no coração d'El-Rei fez logo muita impressão. E com isso os tornou a mandar providos de mercê e de cartas para o conde de Viana, e asi para João d'Escalona, e para outro Sancho Fernandez, de Tarifa, seu tio, que tinha um bregantim e era bom piloto, que para o caso cumpria e se não podia escusar.
Passaram todos em Alcacere, e recontaram ao conde o proposito do cano de Tangere com que iam, o qual anichillou de todo sua fantesia, e concordaram que se não podia fazer, e acordado Diogo de Bairros d'outra parte do muro por onde a cidade melhor se podia escalar e mais a salvamento, depois de sobr'isso praticarem, foram por aviamento do conde com boa dessimulação vêr o dito logar, e com quanto a cidade se velava, porém todos tres por uma escada de corda subiram ao muro, por onde andaram, e sem algum alvoroço nem sentimento colheram hervas d'elle, com que se tornaram a Alcacere, e de hi a Portugal, e com elles João d'Escalona, onde depois de a El Rei dizerem todo o que acharam e experimentaram, ficou muito contente, e sobr'isso praticou logo com o Infante D. Fernando seu irmão. E concordaram que para este caso haver secretamente bom effeito, que o Infante com desejo de honra e outros respeitos e obrigações que mostrasse ter para passar em Africa, pedisse a El-Rei para isso licença, porque com esta mostrança este feito se poderia melhor e mais encobertamente fazer, e assi se cumprio.
E porém a tenção propria e verdadeira d'El-Rei, em caso que logo a não revelasse, foi ser tambem na passagem que outro si logo foi divulgada. Em cujos percebimentos e apurações se seguiram tantos estrondos e alvoroços que os mouros, e principalmente os de Tangere, como do dano de tal passagem mais receosos foram de todo, e para todo logo avisados e percebidos, o que El-Rei por o conde de Viana logo soube, pedindo-lhe que para cousa tão feita como esta de Tangere em seus começos parecia, com semelhantes estrondos a não desfizesse nem danasse, para que abastaria não tanta gente como a de que se percebia, que pouca e pouca podia dessimuladamente vir a Alcacere, e d'alli o feito se faria com segurança e salvamento.
E a este siso não obedeceu o apetito d'El Rei, para que ajudou o conde de Villa Real, que a este tempo estava na côrte, e com o conde de Viana não era em muito accordo; porque envejoso da gloria e honra que se a outrem aparelhava, por ter n'ella parte como por seu nobre e esforçado coração sempre desejou, por seus meios e modos que por si e seus parentes buscou, teve maneira que El-Rei o mettesse n'este feito, em que lhe diziam não ser razão que por dito de dois homens elle com seu reino se aventurasse, e que ante de o cometer convinha que tal pessoa como era o conde de Villa Real com elles em pessoa fizesse juntamente a mesma experiencia. E que El-Rei para ser desenganado era bem que estreitamente lh'o encommendasse, especialmente que elle era tal que buscaria em Tangere outros logares por onde a cidade melhor e mais seguramente se cobrasse. Anichilando como suspeito o conselho do conde de Viana, atribuindo-lh'o a cautelosas manhas com que á custa alheia queria sempre ganhar honra e acrescentamento para si. E em fim, o conde de Villa Real foi d'El-Rei para isso rogado, e elle acceitou a ida com encarecimentos de receber morte e captiveiro por seu serviço, pedindo-lhe que, se lembrasse em tal caso d'elle e de seus filhos. A, que El-Rei logo d'ante mão satisfez concedendo-lhe liberalmente á custa dos bens de sua corôa, mui grandes e duvidosos requerimentos que com elle trazia.
O conde de Villa Real partiu de Lisboa no anno de mil e quatrocentos e sessenta e tres, com elle Diogo de Bairros e João d'Escalona, e no caminho se ajuntou com elles João Falcão, e chegaram a Lagos onde a condessa sua mulher estava parida de D. Fernando seu filho primeiro, e d'alli a levou a Ceuta, e d'hi com achaque de buscar gente com que poderosamente entrasse em terra de mouros passou em Tarifa, d'onde por mar foi vêr o lugar do escalamento, a que não sahiu do mar, nem foi n'elle por causa da muita tardança que fizeram os que primeiro sahiram. A que se juntaram mais Lourenço de Caceres, adail, e Pedro Affonso, os quaes acharam o lugar bem desposto e sem alguma mudança, e com isso se foi o conde mui alegre a Gibaltar, que o anno passado fôra aos mouros filhada, d'onde logo avisou El-Rei da boa desposição do feito, para o qual ficou alli precebendo manhosamente a mais gente que pôde para a passar a Ceuta, como passou, em que foram cento e cincoenta de cavallo e quatrocentos de pé, com fundamento entre El-Rei e o conde já concertado, que no dia que El-Rei por mar houvesse de ser no escallamento de Tangere, a que havia de ir da banda de Castela, de um lugar que se diz Bollonha, esse mesmo dia entrasse o conde por terra e fosse sobre a cidade para soccorrer e ajudar os que n'ella subissem e entrassem, e assi impedir qualquer soccorro que aos mouros da cidade de fóra viesse. E porém na partida d'El-Rei e do Infante se pôs tanta dillação além do tempo que tinham assignado, que o conde sem descobrir o caso não pôde reter mais a gente estrangeira que sustinha, e a despediu.
CAPITULO CXLVIII
Da grande e danosa tormenta que El-Rei e o Infante passaram no mar
El-rei e o Infante cuja passagem de todo era descoberta e divulgada, sendo prestes partiram de Lisboa segunda feira sete dias de Novembro do dito anno de mil e quatrocentos sessenta e tres, com vento algum tanto contrairo para sua viagem, e á quarta chegaram a Lagos, e ahi recolheu El-Rei o conde d'Odemira e o almirante, donde contra conselho de todolos pilotos e mareantes, partiu com assaz fortuna de tempo, o qual carregou tanto sobre a frota, que El-Rei para salvar sua pessoa foi aconselhado que se acolhesse ao porto de Silves, o que erradamente não quiz fazer; antes mandou guiar a prôa direita de seu navio, porque sem torcer nem se deter seguisse sua viagem, e sobre a noite a tormenta se dobrou tanto, que os navios todos correram grande risco de se perder, e os mais por segurarem suas vidas alijaram com grande perda muita parte de suas fazendas, salvo El-Rei, que não consentiu que do seu navio se alijasse com medo cousa alguma. Perdeu-se n'esta tormenta o navio de D. Affonso de Vasconcellos, cuja fazenda e muitos nobres homens se alagou, e as pessoas por milagre se salvaram, e assi sossobrou de todo o mar uma caravella, em que se perdeu grande fazenda de muitos.
E mais morreram Lourenço de Guimarães, e João Vogado, escrivães da fazenda d'El-Rei, e Gonçallo Cardoso, escrivão da camara, e um rei d'armas Portugal, com outros muitos e bons homens e muita fazenda, e n'esta tormenta andou El-Rei com o Infante seu irmão até o sabado, que só sem alguma outra companhia entraram no estreito, e havendo o conde D. Duarte conhecimento d'El-Rei pela bandeira real e capitoa que o seu navio trazia, foi-lhe fallar no mar, e com elle Pero d'Alcaçova que a elle fôra enviado com o aviso e ardil de sua vinda, e depois de se El-Rei lamentar pelo desaviamento de seu proposito, que era não poder desembarcar da parte de Castella, e o conde o confortar mais que reprender pelo erro que fizera, El-Rei e o Infante se partiram para Ceuta, onde poucos e poucos recolheram ao domingo seus navios, e cada um com grande perda e muito destroço, e assi o duque e seus filhos com outros muitos fidalgos, que escapando da tormenta milagrosamente sahiram todos em terra em camisas e descalços, e assi foram em romaria a Santa Maria d'Africa, com que provocaram todos a grande devoção.
CAPITULO CXLIX
De como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere
E depois d'El-Rei declarar sua tenção de tornar a Tangere, por cuja fim alli viera, se partio para Alcacere d'onde enviou logo doze navios de remo com gente escolhida para irem escalar a cidade, cujo capitão foi Luiz Mendes de Vasconcellos, homem fidalgo, e nas cousas do mar bem entendido, com fundamento de El-Rei com seu poder os socorrer á hora do escalamento por terra, e porém o conde D. Duarte contradisse muito o cometimento por mar, pelas incertidões e perigos que tem, mas não foi crido, e Luiz Mendes todavia partio bem avisado do que á sahida do mar e á entrada da cidade havia de fazer.
El-Rei e o Infante e o senhor D. Pedro seu primo, e o duque e condes e toda a outra gente partiram por terra, e uma hora ante manhã chegaram acerca de Tangere, e os que foram nos navios á hora do desembarcar acharam o mar tão bravo, que não ousaram por aquella vez sahir em terra, e ao recolher dos navios havendo os mouros da cidade vista d'elles pelo aviso que já sobre si tinham, fizeram almenaras na cidade, e mandaram poer fogo ás bombardas que pelo muro tinham. E porque aquelle era o signal que se havia de fazer quando a cidade se entrasse, foi El-Rei e todos os que com elle eram mui alegres, e assi abalaram logo rijamente e não sem devida ordenança, mas não tardou muito que foram em conhecimento da verdade, que todo seu prazer converteu em tristeza, e toda esperança do feito em desesperação, e com tudo El Rei com a cara mui segura como seu real coração era sempre nos perigos, foi com sua gente á vista da cidade, que esteve olhando um pouco, e em se recolhendo disse contra muitos, não me leixastes crêr ao conde D. Duarte, por ventura se o fizera esta vinda se empregara melhor, e então se tornou logo a Alcacere, e d'ahi para Ceuta, e com elle o Infante seu irmão.
CAPITULO CL
De como o Infante D. Fernando sem El-Rei entrou d'Alcacere e correu a terra aos mouros
E porque veiu nova que o conde de Vianna e o conde de Guimarães queriam fazer d'Alcacere uma entrada em terra de mouros, quiz o Infante ser n'ella, e pediu licença a El-Rei, que para isso e para repartir e affrouxar o apousentamento em Ceuta lh'a deu, e a El-Rei foi commettido que fosse em pessoa, mas elle por algumas justas causas que apontou o não houve por bem, e estimou por mais sua honra e serviço, antes em seu nome ir um seu capitão tão poderoso, e tal pessoa como era o Infante.
E aos quatro dias do mez de Dezembro o Infante partiu d'Alcacere com todolos senhores da hoste, salvo o duque e o conde de Villa Real, que ficaram em Ceuta, e foi correr umas aldêas, que são na faldra da serra de Benaminir, terra muito fragosa e muito povorada, onde segundo fama vive a melhor gente de peleja d'aquella frontaria, de que mataram até duzentos mouros, e trouxeram captivos duzentas e vinte almas com muito gado e outro grande despojo, e se tornou a Alcacere, e dos christãos por máo resguardo morreram até quinze.
Quiz o Infante haver, e houve para si o quinto d'esta cavalgada, com muito aggravo do conde de Vianna, e não sem algum prasmo e geral reprensão do mesmo Infante, que por seu alto sangue e real condição, saindo d'Alcacere devia em caso que lhe pertencera fazer d'elle mercê ao dito conde, quanto mais que os quintos da villa de direito e por doação pertenciam ao dito conde, a quem El-Rei o compoz e satisfez depois com dinheiro de sua fazenda.
CAPITULO CLI
De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão
E porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que para isso houve foi n'esta maneira.
Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, não ficou filho algum legitimo que o herdasse, e sómente lhe ficou um filho bastardo, D. Fernando, que depois da morte d'El-Rei seu padre, por favores e grandes riquezas que lhe leixou, herdou e teve o reino de Napoles; era irmão d'El-Rei D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que herdara este reino por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou, de que houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de Castella, de que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D. Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por haver liança para suas contendas, que em Castella e Aragão tinha, casou com uma filha do almirante de Castella, de que tendo já filhos sobcedeu por morte do dito Rei D. Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger, pois a elle in solidum por contracto pertencia, e porque o pae não disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos, até que o dito Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que foi julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á Rainha sua madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal que os reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D. Fernando filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e d'Aragão, de que os povos foram mui tristes e anojados; porque D. Carlos era Principe de muitas virtudes, e lhes dava esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de Barcellona, com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a El-Rei D. João, e a deram a El-Rei de França, que os deffendeu um tempo, até que se concertou com El-Rei D. João, que pelo não guerrear lhe leixou o condado de Roselhão pacifico, em que entrou Perpinhão, e anojados d'isso os de Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D. Anrique de Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se concertaram.
E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em sua defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e famosas vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor João Fernandez da Silveira, que depois foi barão d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D. Anrique enviados por El-Rei D. Affonso.
E porém os regedores de Barcellona buscando já por caminhos desesperados alguma esperança de sua salvação, trataram secretamente com o dito Senhor D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos d'Aragão quizesse intitular-se d'elles, e assi receber logo em seu senhorio e poder o principado de Catelonha com a cidade de Barcellona com cujo poder e forças, se o coração e saber lhe não fallecesse, cobraria o mais que El Rei D. João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo se aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que não sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e tão honrada que assi livremente lh'offereciam, mas ainda que a devia trabalhar e requerer, e com ella antes morrer, que viver nos desfavores e desprezos e mingoas em que vivia. Com as quaes cousas movido o dito D. Pedro, determinou aceitar a dita empresa, e por seus assinados e sellos assi o certificou e segurou á dita cidade.
E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a Ceuta, onde sobre concerto vieram armadas duas gallés de Barcellona, com mostrança que vinham a seu trafego d'armada.
D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e quando tornou a Ceuta achou hi as galés, de cujos patrões e regedores que n'ellas vinham, foi de sua tenção certificado, que era logo o levarem, e depois de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu irmão, e o conde de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador Mór de Lisboa o quizesse ouvir, elle com palavras de muita obediencia e autoridade disse a El-Rei todo o movimento passado, e que a este fim eram vindas aquellas galés, pedindo-lhe para isso licença, allegando-lhe muitas razões porque o devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.
E leixadas muitas alterações que sobre isso houveram, El-Rei por então não se pôde escusar, e lhe outorgou a dita licença; e porque o conde de Villa Real tinha grande afeição pela muita honra mercê, que o Infante D. Pedro em regendo sempre lhe fizera, offereceu e deu logo ao dito Senhor D. Pedro, prata e bons corregimentos de casa, e depois lhe enviou cavallos e gente d'armas, o que outro algum do reino não fez. E porém começou El-Rei de dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com fundamento de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera de gentes e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava vêr-se com El-Rei D. Anrique, de que receava que sua ida em Aragão sendo revellada receberia total embargo, e com elle manifesta queda de tamanha honra como parecia que se lhe aparelhava.
E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida, presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite, porque os patrões já mais não queriam esperar, se metteu nas galés e se foi com elles, e a El-Rei leixou por escripto a causa porque assi se partira, e a leal tenção que levava para sempre o servir. Mas n'esta prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com peçonha sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior jaz sepultado.
CAPITULO CLII
De como o escallamento de Tangere se commetteu a segunda vez pelo Infante D. Fernando sem consentimento d'El-Rei
Estando El-Rei em Ceuta, algumas vezes commetteu entrar e ir sobre Arzilla, com desejo e apparelhos de a tomar, e tantas contrariedades recebeu para isso dos grandes invernos que logo sobrevinham, que nunca seu desejo com seus commettimentos poderam vir a algum effeito, e da derradeira vez d'Alcacere se tornou El-Rei para Ceuta, havendo que o escallamento de Tangere era a elle desesperado; porque cria que aos mouros era já descoberto, assi por christãos que captivaram, como por mouros que fugiam, que todos lh'o diriam, em especial pela gente sua que viram quando a primeira vez sobre a cidade foi amanhecer.
E porém em se partindo disse ao Infante seu irmão que por conselho e accordo dos condes, que com elle eram, mandasse tentar a dita entrada ou outra alguma, porque a cidade bem se podesse filhar, e se tal fosse o avisasse; porque quando não viesse com toda sua gente e poder, ao menos como cavalleiro, e com poucos, folgaria ser no feito.
O Infante sobr'isto mandou algumas vezes tentar e experimentar o dito escalamento, que se achou e examinou estar ainda sem alguma innovação, e para se fazer como cumpria, pelo qual determinou fazer-lo por si sem El'Rei. Dizendo que do sentimento que algumas escutas dos mouros haveriam de sua vinda, poderiam os de Tangere receber tal aviso, com que o feito de todo se perdesse, e porém ante de sua partida, tendo conselho com muitos e principaes homens que com elle estavam, Fernão Tellez lhe disse que era presente:
«Senhor, n'esta determinação que tomaes, e em que nos pedis conselho, ante de dizer meu voto, queria de vós saber primeiro duas cousas, a primeira se houvestes licença d'El-Rei para só fazerdes o feito, e a segunda se tendes para elle gente que vos abaste».
E o conde d'Odemira vendo que aquelles eram pontos sustanciaes e que em todo contradiziam á vontade e proposito do Infante, pelo lisonjar para a commissão de Mertola, e da Commenda Mór de Santiago, que lhe então requeria e houve, respondeu logo a Fernão Tellez com palavras assi irosas e asperas, em que o Infante consentio, que no exemplo d'este aprenderam os outros o que no caso diriam.
E porém o Infante, porque a pergunta de Fernão Tellez ácerca da gente lhe pareceu boa e necessaria, quiz saber de todos de que gente para o feito se perceberia. Em que houve muitas sentenças, e com alguma o commettimento do infante (por lhe não desprazerem) se desfazia, anichillando em todo a resistencia e fraqueza dos mouros, salvo com a do conde de Viana que disse:
«Senhor, eu não sei como estes senhores entendem isto que vos conselham, não querendo para acabar este feito, uns dizem vinte, e outros ao mais cento homens, pois eu Senhor não sou mais sandeu, e certifico-vos que me pesaria ser dos quinhentos que o commetessem para o bem acabar; porque quem bem consirar que por força ha-de lançar fóra de suas casas, e de tal cidade como é Tangere, a cerca de tres mil homens de peleja que n'ella vivem, e lhe haver de captivar suas mulheres e filhos, e roubar suas fazendas, em cujo amor se criaram e vivem, a razão lhe ensinará a gente que lhe cumprirá para vencer tantas forças, quanto mais que esta gente não são alarves com cajados por armas, mas é bem armada, feroz e ousada, e já se não hão d'espantar das mortes das mulheres e filhos; porque já muitas vezes as viram e padeceram, por isso Senhor vêde bem primeiro o em que vos meteis».
Mas o Infante pelo ardente desejo que para isso tinha, pospostas todalas contradições, determinou de o fazer, de que alguns tiveram que o Infante por seu mui nobre e alto coração com que sempre suspirou por grandes e arduas empresas, não se contentava fazer nenhuma cousa, por boa e façanhosa que fosse, sendo debaixo de mando e capitania d'outrem, ainda que fôra um grande Imperador.
E porém Diogo de Bairros, e João Falcão tiveram maneira que logo El-Rei fosse em Ceuta, como foi por elles de todo avisado, e de noite como El-Rei houve o aviso, logo a grande pressa mandou diante o Chichorro com vinte ginetes, para que o Infante sobresevesse em sua partida até sua chegada, mas o Chichorro achou já o Infante partido, e El-Rei com grão trigança partiu logo apóz elles acerca de sol posto com oito de cavallo e muita gente de pé, que de cançada ficou em Alcacere. E assi apressou seu caminho que ante manhã chegou aos medoõs que são junto de Tangere.
E porque não topou com seu irmão, que fôra por outro caminho e ficava atrás, houve por sem duvida que elle era já dentro na cidade com o feito prosperamente acabado, pela qual maginação elle e todos davam muitas graças e louvores a Deus, e porém estando assi com os ouvidos álerta, esperando a grita e rumor da cidade, chegou a El-Rei o marechal, que o Infante mandara correr a cidade, por dessimular o escallamento a que com tempo devido não podera chegar; porque como o Infante no caminho viu que a noite lhe fallecia para n'ella chegar á cidade, lançou-se a duas legoas em cillada, e por dissimulação mandou correr com fundamento de ao outro dia tornar commetter o feito. Mas El-Rei com mostranças mais de tristeza que d'alegria se tornou a Alcacere, mui cansado e todolos seus; porque sem descer nem repousar andaram as maiores, nem mais fragosas quinze legoas que podem assignar, e o Infante onde estava em cillada, como soube da vinda e descontentamento d'El-Rei, partiu logo, e foi-se tambem a Alcacere anojado do conde D. Duarte, de quem suspeitou que o aviso d'El-Rei procedera. Mas o Infante não pôde escapar a uma grave e aspera reprensão que El-Rei seu irmão lhe fez pela perigosa ousadia que sem sua licença e contra seu mandado commettera.
CAPITULO CLIII
De como o escallamento de Tangere se commetteu finalmente a terceira vez pelo Infante D. Fernando, e do desastrado sobcedimento que houve
Partiu-se El-Rei para Ceuta, com fundamento de se vêr com El-Rei de Castella, que era já em Gibaltar, e o Infante ficou em Alcacere, onde pelo conde D. Sancho foi incitado para com tudo não desistir do mesmo escallamento que havia de todo por acabado, e que então a empresa d'elle lhe vinha melhor e com mais sua honra, pois El-Rei ia já d'elle de todo desconfiado, e que tivesse maneira que o conde D. Duarte não fosse com elle; porque além de não ser necessario, segundo elle sabia entoar suas cousas, cresse que todo o merecimento do feito quanto se bem fizesse havia de atribuir a si mesmo.
E a tenção de tal conselho bem parece que de inveja, ou d'alguma outra paixão ia propriamente guiada e mais que da verdade, segundo a qual o conde D. Duarte fôra para conselho e ajuda de tal feito mui necessario; porque pelo acabamento de seus grandes feitos era havido e confirmado por mui singular capitão.
Com este proposito o Infante se foi a Ceuta e para o escallamento, se se podesse fazer, pediu licença a El-Rei, que lh'a deu, dizendo-lhe que segundo a fortuna n'este caso se mostrara a elle tão contraira o havia de todo por perdido, e porém o leixava nas mãos de Deus e nas suas, e visse se por alguma maneira podia tomar o lugar; porque posto que lhe prouvesse muito acertar-se no feito; porém muito mais lhe pesaria perder-se, se sem elle se podesse cobrar, e com isto se tornou o Infante a Alcacere, sem o querer revelar em Ceuta, receando não se poder escusar do conde D. Duarte e d'outros senhores, que o haviam para isso de requerer. E depois de tornar e mandar firmar outras vezes a segurança do escallamento, aos XIX dias de Janeiro de mil e quatrocentos e sessenta e quatro partiu d'Alcacere, e mandou levar quatro escadas, de que deu cargo áquellas pessoas em que entendeu que havia saber e esforço para isso.
E na tristeza e pezo que todos levavam pelo caminho, logo para bem do feito pareceu desaventurado pronostico, especialmente que sendo sobre o cabeço, que dizem d'Almenar, pareceu no ceu á vista de todos um espantoso cometa, que lançava de si muitos raios de fogo em figura de dragão. Ali disse então Gomez Freire, nobre fidalgo e de grande coração: «Oh! noite má, para quem t'aparelhas», que ficou em proverbio muito tempo acostumado.
E assi chegaram os primeiros com grande luar junto com a cidade, onde porque a lua de todo se pozesse, esperaram até tres horas ante manhã. E logo Diogo de Bairros, e João Falcão como principaes movedores do feito, pediram e requereram a alguns do conselho d'El-Rei e do Infante que hi eram, que juntamente fossem com elles como testemunhas vêr como estava; porque se por algum caso se perdesse ou desaviasse, elles ficassem por verdadeiros e livres da culpa, e João de Sousa a que seu resguardo pareceu bem acceitou sua companhia, antre os quaes foi dado aviso que as escadas não se pozessem, salvo depois que a guarda dos mouros descesse do castello para fundo.
E aqui é de saber que este lanço de muro porque o escallamento era ordenado, cerra no castello da parte do sertão em que ha cinco cubellos, em fim dos quaes seguindo para fundo está uma torre que se chamava de Gillahare.
E porque do castello havia sahida para o muro por uma ponte levadiça, acordaram os christãos, que por quanto os mouros do castello sentindo a gente no muro poderiam sahir pela ponte e impedir e damnificar os que subissem pelas escadas, que a gente assi como subisse no muro, assi se mettesse logo entre a dita ponte e as escadas, e uns resistissem aos mouros que do castello quizessem sahir, e outros corressem pelo muro a fundo para tomarem outra torre que está sobre um postigo, que se chama de Gurer, com que se cobravam duas cousas para o feito mui necessarias e seguras. A primeira para a gente poder de fóra entrar mui livremente sem perigo nem contradição dos mouros, e a segunda senhoreavam a escada do muro para que a salvo podiam descer e entrar para a cidade.
E os dois principaes escalladores e guiadores, foram primeiramente no muro, e assi os outros que após elles haviam de seguir. E acertou-se que a rolda dos mouros havendo já d'elles algum sentimento estava lançada entre as ameas d'aquella parte, para differençar bem se eram os barbaros da serra, que ás vezes com suas cargas e bestas se lançavam ao pé do muro, ou por ventura christãos, e tanto espaço tomou para de sua duvida se certificar, que dos christãos houveram sessenta lugar para subir, que por pontos d'honra em taes tempos e casos mui prejudiciaes, não quizeram guardar o que entre elles fôra concordado. Pelo qual João Falcão vendo começos de tanto desmando, disse a João de Sousa que tomasse ou matasse um mouro guarda que tinha ante si. E João de Sousa como fidalgo acordado e de bom coração remetteu a elle, o qual da sombra da morte que comsigo viu, acabou ser desenganado de sua duvida e começou de se poer em defesa, e em João de Sousa correndo a lança nas mãos para lhe dar, o mouro em se retrahendo cahiu do muro contra a cidade dentro em um pomar, d'onde começou logo dar grandes brados, senificando com elles o damno dos christãos que se aparelhava, e os christãos como os ouviram sem mais outra consiração, crendo que outra sua grita ao menos para desmaio dos contrairos aproveitaria muito, logo a deram com altas vozes, e não sem grande estrondo de trombetas que já eram em cima, a que os mouros acordaram, e com muita trigança acudiram por saber a causa de tamanho rumor, principalmente os que guardavam a torre do muro porque os christãos haviam de passar. Os quaes assi como viram os nossos estar no muro, assi se tornaram e pozeram á porta da torre, de que podiam bem defender aos christãos a passagem do muro para o não poderem descer para a cidade; porque com sós paos sem outras armas, aos que por elle passassem, segundo era estreito podiam levemente lançar d'elle abaixo, e assi o faziam, e os christãos não podendo já passar não leixavam por isso de subir; porque o Infante era já ao pé do muro, que a uns por amor, e a outros com temor constrangia para isso, e assi como subiam não podendo al fazer assi se mettiam por esses cubellos, e outros descendo para fundo não podendo passar ficavam amontoados, sem poderem aproveitar a si nem danar aos contrairos.
A cidade era já toda posta em armas e grande alvoroço, e como o alcaide que se chamava Abrahem Benaamet foi por si certificado que nas outras partes da cidade não havia outro commetimento nem affronta que muito receou, salvo n'aquella, mandou logo ali vir grande claridade de fogo, e com besteiros e espingardeiros, que em grande numero mandou metter no pomar que era defronte d'onde os christãos estavam, matavam e feriam muitos, e muitos em se revolvendo cahiam do muro entre elles, que claramente eram logo espedaçados, e com gente que se enadeu no castello, que sahiu pela ponte levadiça, tomaram as escadas postas no muro, ainda que não foi sem grande peleja que sobr'isso houve, e foi de maneira que do castello e de todalas partes, os mouros sem algum seu perigo faziam um piadoso estrago nos christãos, porque sendo as escallas tomadas não tinham algum remedio de salvação. O que todo bem visto por João de Sousa, disse ao Infante de cima do muro, que não mandasse subir mais gente; porque o feito com a gente subida eram de todo perdidos, e o Infante sobre esperança de tanta alegria, ouvindo recado tão certo e tão triste, não menos anojado que esforçado arremetteu a uma escada de troços que mandara armar, e quizera por ella subir dizendo que o que fosse de tão bons criados e servidores como já dentro eram, seria d'elle até com elles morrer. Mas era hi o conde d'Odemira, e o commendador mór de Christus com outros, que com palavras prudentes e de bom esforço o detiveram, dizendo-lhe que aquella gente por boa e nobre que fosse, em caso que Portugal a perdesse, bem poderia cobrar outra tal e melhor; mas não a elle que era tal e tamanho Principe, que o reino teria d'elle para sempre muita mingua e grande necessidade, e que não desse causa que Tangere fosse tantas vezes sepultura de Infantes de Portugal, e com estas e outras razões de conforto a estas conformes a que o Infante obedeceu, vendo já o feito sem algum remedio, se tornou para Alcacere.