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O CONDEMNADO
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O CONDEMNADO
DRAMA
EM TRES ACTOS E QUATRO QUADROS
SEGUIDO DO DRAMA EM UM ACTO
COMO OS ANJOS SE VINGAM
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
PORTO
VIUVA MORÉ--EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
1870
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IMPRENSA PORTUGUEZA
Rua do Bomjardim, 181.
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A JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
Se ainda tens lagrimas, se ainda as tens no coração, meu infeliz amigo, permitta Deus que possas verter alguma na pagina onde encontrares uma palavra, um grito de lacerante angustia, como tantos que has de ter abafado.
N'este livro, não pude bem assignalar um leve traço do teu enorme infortunio. Não pude, porque a tua desgraça não tem nome.
Figura-se-me que tu, Vieira de Castro, na tua cerrada noite de seis mezes, ainda não pudeste vêr ao sol de Deus os sulcos por onde desceu de teus olhos o sangue, a seiva toda de tua mocidade.
Entre o teu passado e este dia de hoje--cujas horas vão já batendo na eternidade de uma tristeza irremediavel--estás tu empedrado de assombro a encarar no abysmo onde te resvalou a mão que beijavas e ungias de lagrimas de felicidade.
No fundo d'essa voragem vês as tuas corôas de gloria a seccarem-se, a desfazerem-se, a pulverisarem-se--o desabar deploravel d'uma esplendida vida que foi a tua, ó grande espirito!
Levanta d'ahi os olhos, alma atormentada, antes que vejas em lodo o pó das tuas grinaldas, sobre as quaes vão cuspindo homens tão escassos de misericordia, como de dignidade.
Deus que te veja chorar, e te envie o doce trago da morte, que receberás sorrindo como todo o homem que expira vergado ao pêso de sua cruz, mas não á ignominia d'ella.
Falta-te morrer, Vieira de Castro, para que em tua sepultura se respeitem as cinzas d'um grande coração extremado na honra e na desgraça.
CAMILLO CASTELLO BRANCO.
PERSONAGENS
D. Eugenia de Vasconcellos (ou D. Leonor) 28 annos
Viscondessa de Pimentel 50 »
Visconde de Vasconcellos 55 »
Rodrigo de Vasconcellos 28 »
Pedro Gavião Aranha 27 »
Jorge de Mendanha ou Jacome da Silveira 51 »
José de Sá 50 »
Joaquim, criado.
João, criado.
Outros criados e pessoas que não fallam.
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A scena corre no Porto em 1857.
O CONDEMNADO
ACTO PRIMEIRO
Sala pomposamente trastejada, mas em desordem. Portas ao fundo e lateraes. Dois criados estão espanando a mobilia.
N. B. O criado João, mais montezinho que os outros, denota a estupidez velhaca do aldeão.
SCENA I
JOAQUIM E JOÃO
Joaquim (refestelando-se em um sophá)
Ó João, toca a descansar; senta-te, mas com geito, se não afundas.
João (apalpando o estofo)
Isto foi amanhado com bexigas cheias de vento? Queres tu vêr que eu vou rebentar o fole? (Deixa-se cair e levantar pelo elasterio das molas) Ih! cuidei que dava co' costado no solho! Um homem regala o cadaver n'estas enxergas!
Joaquim
Isto sempre é melhor que andar a guardar ovelhas na Samardan, eim?
João
O quê? pois não fostes? Tomára-me eu lá com as minhas ovelhas. Assim que m'alembram os nossos montes, começo a esbaguar e átrigar-me aqui dentro do coração (pondo a mão na barriga).
Joaquim
O coração não é ahi, bruto! Ahi são as reins.
João
Onde é então?
Joaquim
Aqui. (Pondo a mão perto do sovaco do braço direito).
João (com espanto)
Aqui?! Credo!
Joaquim
Ahi mesmo. Aqui foi sempre o coração; e o bucho está aqui, salvo tal logar (apontando o umbigo).
João
O bucho aqui? aqui é a espinhela; o bucho é onde cáe a trincadeira.
Joaquim (rindo-se com ar de ironica piedade)
João, tu chegaste da Samardan ha quinze dias, e eu tenho palmilhado todas as capitaes do reino de Portugal. Olha se me ensinas onde está o bucho, a mim, que tenho sido criado de conselheiros, de conegos, de barões, e mesmamente de ministros de estado! O bucho desde que o mundo é mundo, foi sempre aqui (insiste na demarcação). Faz-te esperto, rapaz! O patrão já me disse hontem: «Ó Joaquim, este teu primo é um burro.»
João
Eu bem ouvi. Não foi assim que te disse o patrão. O que elle disse foi: «Ó Joaquim, este teu primo é tão burro como tu.»
Joaquim
Não disse isso.
João
Na minha salvação, disse; e cá a mim, se o patrão me torna a chamar burro, vou-me p'ra a terra. Eu não sou burro, sou christão baptisado. Alcunhas não nas quero. Cá no Porto é costume essa chalaça.
Joaquim
Que chalaça?
João
Todos são bichos.
Joaquim
Todos são bichos? Más maleitas me tolham, se eu te percebo!
João
Lembras-te quando eu fui p'ra porta da rua saber quem vinha cá? Pois olha, ao primeiro veio um fidalgo que se chamava Lobo; depois um Raposo; depois um Leão; depois um Coelho e um Lebre, e outro senhor chamado Camello, e outro Pato, e um Rola. Olha que bicharia! Eu estava a vêr quando chegava um Urso e um Boi. Lá na Samardan toda a gente aveza nomes de gente, pois não aveza?
Joaquim
Homem, tu nunca viste nada. Faz minga correr todas as capitaes do reino de Portugal como eu. Olha que os fidalgos quasi todos tem bichos...
João (atalhando)
Tem bichos? Arrenego-os eu!
Joaquim
Não me falles á mão; quasi todos teem bichos no nome é o que eu queria declarar na minha proposta. Tu não inzaminaste as armas reaes que o patrão tem nas quintas lá de riba?
João
Olha que já estive a malucar que na porta da quinta do Corgo estão as armas do rei com dois largatos e um lacrau. Os largatos, salvo seja, teem assim as unhas (recurvando os dedos). E o lacrau tem a lingua á dependura (figurando). Mas cá o patrão não se chama largato nem lacrau, que eu saiba.
Joaquim
O animal que viste não é lacrau. O bicho que bota a lingua de fóra chama-se leopardo.
João
Isso é nome de christão... Leonardo!
Joaquim
Leopardo, asno!
João
Tu não me chames asno, primo! Não me desfeiteies. Quem não sabe, aprende. Então por que tem o patrão o leopardo nas armas reaes?
Joaquim
É historia antiga lá da familia.
João
Então esse bruto era da familia do patrão? Tu tamen não és pequeno alimal, Joaquim! Estás um bom fistor! Olha se me engrampas a mim. Olha... (Arregaça o olho esquerdo).
Joaquim (alvoroçado)
Espana, que ahi vem gente...
SCENA II
OS MESMOS E O VISCONDE DE VASCONCELLOS
Joaquim
Tenha vossa excellencia muito bons dias, senhor visconde.
Visconde
Adeus. Meu filho saiu?
Joaquim
Saiu ás nove horas e mais a senhora. Acho que foram comprar arranjos para o baile.
Visconde
Quando é o baile?
Joaquim
Ámanhan, senhor visconde.
João
É ámanhan, mas saberá vossa excellencia que só começa de noite.
Joaquim (acotovelando-o)
Cala-te ahi!
Visconde
Vão; e assim que meu filho entrar digam-lhe que estou aqui. (Os criados sáem).
SCENA III
Visconde de Vasconcellos
Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera não saber que meu filho dá bailes!... Deixasse-me eu ficar na solidão do meu desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no coração viçoso e feliz de meu filho, para que a desgraça o não assalte em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e chorados ao pé d'uma sepultura!... isto é uma iniquidade! Os experientes da vida, os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam comsigo um fantasma funesto. Na sua presença, aos descuidados do futuro desmaia-se a côr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos não desculpam o velho, que sáe ao encontro da mocidade e lhe diz: «Envelhece antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te não colha ainda na primavera, e te não abra no rosto o sulco das lagrimas. (Ouve-se o rodar de sege). Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios, esperando-o nos salões, d'onde a noite de ámanhan fugirá de pressa como fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da vida as lagrimas não podem desfazer... Para que hei de entristecel-o? Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraça porvir isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a boca do abysmo. Deixal-o ser moço até que a primeira nortada do infortunio lhe bata no rosto. (Suspenso e recolhido). Não posso, não posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouçam gemer no parcel onde naufraguei.
SCENA IV
VISCONDE E RODRIGO DE VASCONCELLOS
Rodrigo (beijando-lhe a mão)
Esperou muito tempo, meu pae?
Visconde
Não esperei. Onde está tua mulher?
Rodrigo
Eugenia vem já. Foi largar a capa e o chapéo, e naturalmente matar saudades do filho. Eu tencionava ir logo pedir-lhe a sua vinda ao baile de ámanhan.
Visconde
Ias convidar-me para um baile, Rodrigo?! A mim?! já me viste em bailes?
Rodrigo
Certamente não. Nas quintas, onde vossa excellencia costuma viver, seria rara a tentação dos bailes (sorrindo); e meu pae, que deixou ha tantos annos as salas de Lisboa, de certo não succumbiria á tentação em Lamego ou Amarante. Eu sei no entanto que meu pae frequentou os bailes da capital, e se distinguiu entre os mais notaveis moços, alguns dos quaes ainda hoje reflorescem alegres primaveras, a julgal-os pela côr das barbas. Ainda hontem uma dama da alta sociedade de Lisboa, prima dos condes de Travaços, me perguntou se o pae ainda conservava memorias do gentil rapaz que havia sido. Recorda-se de uma senhora viscondessa de Pimentel?
Visconde
Muito bem.
Rodrigo
Póde vêl-a aqui ámanhan.
Visconde
Essa dama ainda folga em bailes?
Rodrigo
Porque não? Representa uns trinta e cinco annos.
Visconde (sorrindo)
É mais nova do que eu uns cinco annos. Eu tenho cincoenta e seis. Lembro-me perfeitamente da Francisquinha Almeida, que depois casou com um Pimentel, que a fez viscondessa. Era mulher de talento satyrico, pouco exemplar nos costumes, e... (Mudando de tom). Deve ter branco o formoso cabello loiro que tinha...
Rodrigo
Agora é negro.
Visconde
Sim? Ahi tens, meu filho, uma das proeminencias ridiculas do teu baile: essa dama tingida, pintada, galhardeando-se, e talvez polkando garbosamente como quem sacode dos hombros o pêso de meio seculo. Mas o ridiculo dos bailes não é o mau; o mau, o péssimo é o que é triste, é o que não póde ser visto senão por olhos que choraram muito...
Rodrigo (interrompendo-o)
Vai o pae entristecer-se... e começou tão bom, tão ironico...
Visconde
As minhas ironias, Rodrigo, são sempre amargas; mas o fel que ellas tem, todo contra mim reverte. Ahi vem Eugenia; mudemos de conversação.
SCENA V
OS MESMOS E D. EUGENIA
D. Eugenia (beijando a mão do Visconde)
Como está, meu pae?
Visconde
Bom. Vejo que está excellente a minha filha. Ainda não perdeu as boas côres que trouxe da provincia.
D. Eugenia
Quem me lá dera outra vez!
Visconde
Na aldeia? n'aquella casa melancolica, cercada de montanhas, onde nunca chegaram os ecos das musicas de um baile? Queria-se outra vez na aldeia a minha Eugenia?
D. Eugenia
A primavera ainda vem tão longe...
Visconde
E depois que lá estiver, a menina ha de ter saudades do baile de ha quinze dias, do baile de ámanhan, e dos bailes que...
D. Eugenia (interrompendo-o)
Não, senhor. O que eu vejo e sinto agradavel nos bailes é o contentamento de Rodrigo. Elle está acostumado a estes recreios, e acha n'elles o prazer que eu provavelmente acharia tambem, se não tivesse sido creada e educada em um recolhimento. Por mais que a gente queira habituar-se á vida cá de fóra, o geito e o acanhamento da clausura não se perde.
Visconde
A minha filha, portanto, sacrifica-se aos usos e costumes da sociedade elegante...
D. Eugenia
Aos costumes da sociedade elegante, não, senhor; ao contentamento de Rodrigo, sim.
Visconde
Pois, Eugenia, encarecidamente lhe peço que empenhe todo o valor do seu coração em persuadir a meu filho que ha contentamentos mais solidos e ineffaveis que os bailes. Insinue-lhe com as suas phrases singelas e amoraveis que as serenas delicias da vida intima fogem assustadas das folias estrondosas das salas. E diga-lhe que, no fim de uma noite de baile, apparecem nos tapetes umas flores sem viço, que muitas vezes symbolisam corações sem innocencia. Corações e flores perderam a candura e aroma na mesma hora, queimados pelo calor da mesma respiração.
Rodrigo (sorrindo)
Ahi vem o pae com as suas theorias pessimistas. Ainda ninguem viu os vicios da sociedade por vidros de tamanho augmento!
Visconde
Eugenia, deve ter muito em que lidar. Quem dá um baile precisa mortificar-se oito dias antes, e fazer holocausto das suas canceiras ao Bom-Tom, idolo creado pelo paganismo moderno. A civilisação tem apostolos e martyres. Ora vá.
D. Eugenia
Janta comnosco, sim?
Visconde
Póde ser.
D. Eugenia
Até logo, (apertando-lhe a mão--Sáe).
SCENA VI
VISCONDE E RODRIGO
Visconde (com gravidade)
Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e ficas avisado para, na presença de tua mulher, nunca me desafiar a discutir comtigo em assumptos de corrupção social. Agradece tu ao acaso a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. Não a illustremos; ouviste, Rodrigo? Não a illustremos... Bem vejo que estás no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado; queres que elle refulja á luz dos bailes. Vaes entrando com ella por estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana se assoalha; onde os corações como que andam á vista nos seios descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras...
Rodrigo
Jesus! que imaginação! Meu pae está illudido com a sociedade.
Visconde
Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?!
Rodrigo
Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezão, um modelo de fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo lá não achou as demazias de desmoralisação que se lhe figuram na sociedade de hoje. Suppondo que nos salões de ha vinte e tantos annos, meu pae encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe não depararam virtuosas e optimas? Se eu lá procuro exemplo de bons costumes em moço rico e considerado, não encontro meu pae?
Visconde
Não. Quem te disse a ti que eu não fui um... um villão?
Rodrigo
Se meu pae houvesse sido um villão, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens, apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia. É isto que eu conjecturo do seu passado.
Visconde
Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de velho e de pae. (Pausa). Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao açoute com que a Providencia o fere. A força da alma, a probidade, a indole generosa que se me formou na educação, perdi-as, e foi nos salões que as perdi. Não me foi necessario immergir na lama das orgias para de lá sahir libertino. Nunca ahi desci. Foi nas salas que o meu coração se encheu da peçonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os mais vulgares sentimentos da honra, não salvando sequer a coragem, esse derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara aos assassinos em duello. Dos bailes é que eu sahi infamado e infame aos meus proprios olhos. Imaginas tu o que é isto de sentir-se um homem infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espaço de vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braços quando eras menino, e dizer-te muitas vezes: «Ó filho, ó creatura innocentinha, pede á misericordia divina que se dê por contente com o immenso calix de amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de lagrimas de sangue.» (Soluça).
Rodrigo
Meu querido pae, que extraordinaria dôr é essa!? O seu espirito sombrio está exagerando culpas ignoradas. Nunca me fallou alguem nos seus crimes. Se elles fossem enormes, ou sequer sabidos, não teriam esquecido...
Visconde
A sociedade esquece tudo. Esquece victimas e algozes. Mas não esqueças tu que viste chorar teu pae. Se poder ser, vê sempre estas lagrimas através das alegrias dos teus bailes, e escuta-me lá algumas vezes como se eu te estivesse pedindo que fujas d'elles com tua mulher; e, se não pódes defender-te d'estes prazeres traiçoeiros, meu filho, consente que tua mulher se não aparte das arvores onde a chamam as saudades; deixa que ella se fique na quietação da aldeia, e vem tu para as cidades. Tu voltarás mais tarde cansado e dilacerado; e, quando cuidares que vaes sem coração, encontral-o-has no seio puro de tua mulher e no sorriso de teus filhos. Perde-te; mas poupa a alma de Eugenia, para que te não falte o ultimo refugio. Olha que uma esposa sem macula, um amor de mulher sem remorso de crime, nem receio de que lh'o descubram, é luz que nos vai procurar a todas as voragens. Abysma-te; mas não a desvies do berço de teu filho; não quebres o sagrado laço, que Deus formou entre a alma que se está formando, e a alma de mãe, onde é preciso que arda um grande amor, santificado por consciencia de grandes virtudes.
SCENA VII
OS MESMOS E JOÃO
João
Fidalgo, está alli um senhor que se chama...
Rodrigo
Como se chama?
João
Elle, a fallar a verdade, disse como se chama; mas barreu-se-me de todo; e mais tenho-o debaixo da lingua, como lá diz o outro. (Recorda) Elle tem dous nomes de bichos.
Rodrigo
De bichos?!
João
Sim, senhor fidalgo; mas não é dos que vem cá a casa.
Rodrigo
Dos que vem quê?
João
D'aquelles fidalgos, que se chamam Leões, Lobos e Camellos.
Rodrigo
Burro!
João
Tambem não é burro... Ah! (sacudindo a mão direita) Parece-me que me lembra. Um é assim, um nome de passarôlo grande, que se chama.... Ora o diabo.... que se chama.... Não é corvo, nem pato, nem milhafre, nem... ah! é Gavião.
Rodrigo
Gavião?
João
Saberá vossa excellencia que sim; mas elle ainda tem outro nome de alimal.
Rodrigo (ao pae)
Eu foi muito amigo d'um rapaz que viaja ha annos, chamado Gavião Aranha.
João
Aranha! é isso mesmo. É Aranha.
Rodrigo
Vai de pressa; que entre. (João sáe).
SCENA VIII
O VISCONDE, RODRIGO E DEPOIS PEDRO GAVIÃO ARANHA
Rodrigo
Foi um dos meus amigos mais constantes. Ha quasi dous annos que não sei d'elle.
Visconde
Vou sahir. Até logo.
Rodrigo
Permitta que eu lhe apresente o Aranha. É um excellente rapaz, o melhor coração de cátavento que ha no mundo. Eil-o ahi está! (Vem entrando Pedro: Rodrigo vai recebel-o nos braços) Não ha que duvidar. É o Pedro Aranha. Como estás tu, rapaz? Bello, gentil, com uma cara espirituosamente franceza.
Pedro
Americano-ingleza, se dás licença. Estas barbas procedem de Nelson, e dão-me o grave tom plastico de um negociante de queijos londrinos.
Rodrigo
Meu pae, apresento o meu intimo amigo de collegio e dos salões de Lisboa. As nossas alegrias e tristezas da mocidade eram communs. Pedro, aperta a mão ao melhor dos paes.
Pedro
Respeitosamente aperto a mão ao senhor visconde de Vasconcellos. Ha dous mezes me perguntaram em New-York se eu conhecia vossa excellencia. Respondi que tinha a honra de ser amigo muito particular d'um filho do senhor visconde.
Visconde
Quem se lembrará de mim na America Ingleza?
Pedro
Um portuguez que disse chamar-se Jorge de Mendanha.
Visconde (recordando-se)
Jorge de Mendanha! Não tenho a mais leve lembrança de tal nome! D'onde é elle?
Pedro
Provinciano, não sei de qual provincia.
Visconde
Deve ser velho.
Pedro
Entre cincoenta e cincoenta e cinco annos, penso eu. A cara é de maritimo torrada do sol, um bronzeado de africano; mas a linguagem tem certo relevo litterario, e as maneiras são aristocraticas, sem pretenção.
Visconde
E disse que me conheceu?
Pedro
Não, senhor visconde; apenas me perguntou se eu conhecia a vossa excellencia.
Visconde
Provavelmente é algum dos muitos rapazes da minha criação no collegio dos nobres. Esqueci todos, excepto um ou dous que já são mortos. Jorge de Mendanha!... não me posso lembrar. Senhor Gavião Aranha, conversem, que hão de ter muito que recordar. Eu folgo de conhecer vossa excellencia. Demora-se no Porto? Creio que não é daqui...
Pedro
Sou algarvio. Quando cheguei a Lisboa e soube que Rodrigo estava no Porto, e casado, parti sem demora a vêr se conseguia ainda usurpar á esposa alguma da muita amizade que elle me deu.
Visconde
Meu filho sabe apreciar os verdadeiros amigos. (Aperta-lhe a mão, e sáe).
SCENA IX
PEDRO E RODRIGO.
Pedro
Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu vossê a minha ultima carta?
Rodrigo
Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo.
Pedro
Não recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me pela Asia dentro, e voltei á America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa.
Rodrigo
Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de descripções romanticas, não ousou profanar o esconderijo onde me foragi com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher.
Pedro
Venha cá vossê. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia do seu casamento. Todos os pormenores são pontos essenciaes d'esse solemnissimo desmentido ás tuas grandes theses de celibatario defendidas nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto do coração.
Rodrigo
Esqueleto do coração!... Ó ignorante, aprende que o coração é musculo.
Pedro
É musculo ôco; eu tambem já sabia isso, mestre; tambem fiz do peito amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres meio delidas na superficie rugosa do coração, encontrei o musculo, de que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste?
Rodrigo
Isso.
Pedro
Isso quê?
Rodrigo
O vacuo do coração; mas a plenitude da alma, que é outra casta de entranha.
Pedro
Entranha! a alma é entranha! Collocas a essencia immortal na categoria do figado e do baço! Deixemos essa questão á Academia real das sciencias, e vamos á historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a vulgaridade do matrimonio. Vamos ás peripecias. (Em tom emphatico de narrador) Era uma formosa tarde de estio....
Rodrigo
Não tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento.
Pedro
Não?!
Rodrigo
Vê lá se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja, mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a Evora, perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas, muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio!
Pedro
Sim: temos já duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor pelo cemiterio!
Rodrigo
Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar. Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroço e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe désse alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua Eugenia, um anjo que Deus lhe mandára, como compensação, que em poucos annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me então a sua amiga. Não trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um scismar e concentrar-se sem affectação, sem sequer attender á presença de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia. Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.
Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia. Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade de Evora com uma menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com poucos meios, e morreu não deixando alguns, quando Eugenia contava dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e repartiu com ella a sua pensão. N'este sereno affecto encontrei as duas orphans.
As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza de que não é filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a supposição de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a procedencia de algum desgraçado amor, obrigava talvez a curiosidade a não devassar o mysterio de que minha prima não tinha a menor elucidação.
Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha, expirou nos braços da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados dias.... Vê lá se te estou estafando com a historia.
Pedro
Homem, não vês o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados dias...
Rodrigo (proseguindo)
Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe não lisongeava a alma, que eu ainda mal conhecia.--Se amas Eugenia, casa, disse elle.
Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certidões necessarias ao casamento. Nada obtive; apenas um antigo capellão do recolhimento me disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de Eugenia, entrára no convento em 1837 e morrêra em 1849 sem ter escripto nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D. Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No pensar do capellão esta dama era fidalga, porque o padre que a confessava uma vez dissera que a secular tinha tão nobre sangue como espirito. Este padre confessor era já fallecido quando o procurei em Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis indagações. Obtive dispensa das mais urgentes certidões, e casei com Eugenia... Por esta occasião meu pae perfilhou-me.
Pedro
Tu eras filho natural? Eu não sabia.
Rodrigo
Não? Nem eu. Só depois que sahi do collegio dos nobres e fui á provincia, é que os criados me contaram que minha mãe era uma formosa e pobre moça que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens.
Pedro
E dizias que não tinhas romance!...
Rodrigo
Romance não é; é o que os romancistas não sabem pintar: a felicidade perfeita. Eugenia é boa como todas as mães extremosas. Tenho um filho de seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente e doce alma da mãe. Eu não tinha direito a tanto contentamento sem intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus, e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo.
Pedro
Que linguagem! que transformação! Deixei-te sceptico a respeito de mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a respeito dos meninos. Acho-te um coração cheio dos tres e unicos elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a religião que recebe os bens e os males da vida como favores da Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo. Depois d'isto o que eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando não tinha esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu á proporção dos capitaes, não é verdade?
Rodrigo
Sim; vivo bem, e desassombrado de credores.
Pedro
Ah! tu já não tens credores?! (baixo) Transgrediste o solemne juramento que fizemos em Lisboa de não pagar a uzurario que abuzasse da nossa innocencia do juro da lei?!
Rodrigo
Meu pae mandou pagar tudo e a todos.
Pedro
E não te amaldiçoou?
Rodrigo
Não.
Pedro
Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu!
Rodrigo
Disse-me isto sómente: «Se houvesses contrahido dividas no valor do que possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por óra és rico; mas, se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinará o caminho da infamia.»
Pedro
Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve passar para a nova edição do Thesouro de meninos!
Rodrigo
E tu não pagaste áquelle dos oculos verdes?
Pedro
A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham oculos verdes. Eu não paguei a nenhum. Sou equitativo, e não distingo credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei não pagar.
Rodrigo
Teu pae provavelmente pagou...
Pedro
As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e Roma, se meu pae pagava as minhas dividas não pagando as d'elle! Os meus credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia não ha avô que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raça insoluvel desde meu vigesimo quarto avô D. Ordonho, principe gothico, até mim, que tambem não pago porque me não chamem gothico, como éra meu vigesimo quarto avô D. Ordonho.
SCENA X
OS MESMOS E D. EUGENIA
D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz menção de retroceder vendo um estranho
Rodrigo
Entra, Eugenia. (Ella entra com uma carta aberta.) Quero apresentar-te ao meu amigo Pedro Gavião Aranha.
Pedro
Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de auzencia.
D. Eugenia
O Rodrigo já me tinha fallado de V. Ex.ª com muita estima; e eu tenho muito prazer em vêl-o n'esta casa. (Voltando-se a Rodrigo) Chegou agora esta carta da condessa de Travaços. Vê.
Rodrigo (depois de a lêr mentalmente)
Pede um convite para o baile... (reflectindo) Ó Pedro Aranha, como se chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae?
Pedro
Jorge de Mendanha.
Rodrigo
Ora ouve lá: (lê). «Minha querida, senhora. Peço-lhe que obtenha do Rodrigo de Vasconcellos um cartão de convite para um sugeito de fóra que foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha.
Da sua prima e amiga etc.»
Pedro
Oh! cá está o homem! E é singular coisa! Quando sahi da America estive com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vão V. Ex.as vêr um homem de romance.
D. Eugenia (com simplicidade)
Então quem é esse homem?
Rodrigo (risonho)
Essa pergunta assusta-me! Alvoroça-te a prespectiva d'um homem romantico?
D. Eugenia (sorrindo ingenuamente)
Nunca vi nenhum...
Rodrigo
Nem á mim? Então que sou eu? Não sou... sequer romantico!
D. Eugenia
Não; tu, Rodrigo, és bom... Eu li alguns romances no convento; e não encontrei n'elles a semelhança do teu genio; e nós lá quando diziamos que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, não lhes faziamos elogio algum. Por isso é que eu desejava saber em que opinião se deve ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que é de romance.
Pedro
E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha é o mysterio; é um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares que impõe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moços. É eloquente; mas falla á moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo e cathedratico. Emfim, minha snr.ª, estimo grandemente o novo encontro com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos acotovellam nos bailes, nos cafés, nas ruas, em todo este Portugal que é uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para meninos do côro.
Rodrigo (sorrindo)
Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do côro creado nos viveiros de Portugal. (Indica Pedro).
Pedro
Pois bem; eu não inculco a minha sufficiencia para corista; mas é que eu fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes são por tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisação anglo-americana é uma especie de depillatorio que descabella os ursos de todas as nações.
Rodrigo
Tudo portanto que não foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma tosquia, é urso. Obrigado, snr. Gavião Aranha. Dá alvará de urso aos seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na sua pessoa.
Pedro
O que?
SCENA XI
OS MESMOS E JOÃO
João
Está lá em baixo uma fidalga n'um carrão.
Rodrigo
N'um carrão?
Pedro
Hade ser carroção. Pois ainda ha no Porto fidalgas que se fazem mover por bois?
Rodrigo (a João)
É carroção ou carroagem?
João
É sim senhor.
Rodrigo
O quê?
João
É uma d'estas chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante.
Rodrigo
Chirinolas que trazem os moxillas na tampa de diante. Entendeste, ó Pedro?
Pedro
Tu deves ter diccionario particular para entender o sujeito. A linguagem tem certo pittoresco, e um sabor classico.
D. Eugenia (rindo)
Falla á moda de Traz-os-montes.
Rodrigo
Essa coisa é puxada por bois ou cavallos?
João
São eguas, fidalgo.
Rodrigo (a Pedro que ri)
Este é o creado que te annunciou com dois bichos. (Para João) Quem é a senhora?
João
Um dos moxillas disse que é a snr.ª D. Viscondessa de Pimentel.
Rodrigo (com as mãos na cabeça, comicamente)
Ai! ai! ai!
Pedro
Pois está no Porto a viscondessa de Pimentel?
Rodrigo
Eu vou recebel-a á portinhola; mas tu depois dispensa-me, Eugenia. Deixas-me fugir, sim, meu amor?
D. Eugenia (sorrindo)
Pois sim. (Rodrigo e João sahem).
SCENA XII
D. EUGENIA E PEDRO
Pedro
A viscondessa de Pimentel! como atura V. Ex.ª esta arara de conserva?
D. Eugenia
Conheço-a ha poucos dias. Encontrei-a em casa da condessa de Travaços, e fui visital-a depois ao hotel de Francfort... É a primeira vez que vem cá.
Pedro
Mas ridicula até á commiseração, não é verdade?
D. Eugenia
Não... Faz-me dó! Tenho muitissima pena das senhoras que se não resignam com a velhice. No convento, onde eu fui creada, muitas senhoras, sendo em tudo exemplares, esqueciam-se de se fazer venerar pela idade; e eu tinha muita compaixão quando se riam d'ellas.
Pedro
Ella ahi está explendida de antiguidade como uma cathedral!
SCENA XIII
OS MESMOS, RODRIGO E A VISCONDESSA DE PIMENTEL
_A viscondessa é uma senhora de 50 annos, trajando no requinte da moda, e dissimulando a idade com o caio no rosto e cabellos postiços. Nos trejeitos e meneios exagera um desembaraço ridiculo, com o intento de affectar o garbo e desenvoltura de rapariga. Entretanto convem que se não desmanche dos modos verdadeiramente palacianos e proprios de esmerada educação e pratica da melhor sociedade._
D. Eugenia (indo ao encontro da Viscondessa)
Senhora viscondessa, como está V. Ex.ª?
Viscondessa
Muito nervosa. E V. Ex.ª? Hontem no theatro deu-me grande cuidado a sua sahida no intervalo do 2.º acto. Pedi ao primo Travaços que soubesse se algum motivo extraordinario alem do spleen... oh! o spleen!.. é uma calamitosa enfermidade esta, não acha?.. depois soube felizmente que o snr. Rodrigo de Vasconcellos dera uma gentil e formosissima razão da sua sahida...
D. Eugenia
Ah! sim... Eu sahi porque... (sustendo-se).
Rodrigo (a Pedro)
Porque teve saudades do filho, Pedro Aranha.
Viscondessa (com alvoroço)
Pedro Aranha! Pois está aqui o snr. Pedro Aranha... Bem me parecia conhecer... mas por mais que concentrasse as minhas reminiscencias...
Pedro (apertando a mão da viscondessa)
Eu esperava ensejo de poder comprimentax V. Ex.ª
Viscondessa
Vem de Pariz?
Pedro
Da Suissa, minha senhora.
Viscondessa
Da Suissa? paiz das montanhas colossaes, com muitas bellezas selvagens, e a poesia magestosa e imponente do extraordinario, não é assim?
Pedro
Sim, minha senhora; ha muita poesia grandiosa na Suissa.
Viscondessa
Eu amo as soberbas descripções d'esse paiz! Já pedi ao visconde que me mostrasse a Suissa; mas o egoista respondeu que detesta as viagens em nações montanhosas. Ha certos espiritos que querem as nações chatas como elles. Quem me dera beber o ar que sacode os cabellos nos pincaros das serranias! É desejo que me devora desde menina. O visconde diz com a mais desgraciosa semsaboria que suba ás agulhas do Marão ou da serra da Estrella onde ha muito ár puro. Vejam que curteza de alentos! Para certas almas o ar é ar em toda a parte. Vêr o mar do rochedo de Santa Helena ou da Trafaria é igual. Tudo é agua: não é assim, snr. Aranha?
Pedro (ironico)
Sempre espirituosa, sempre admiravel de critica, e inexoravel com o seu bom senso em castigar os espiritos canhestros...
Viscondessa
Pois não é assim?
Pedro
Irrefutavelmente é assim, senhora viscondessa. Eu recebo as ordens de V. Ex.ª (a D. Eugenia. Rodrigo pega no chapeu.)
D. Eugenia
Vão sahir? Vem fazer companhia ao Rodrigo e ao pae? A gente espera o snr. Aranha.
Pedro
Não me dispenso da honra e do prazer, minha senhora.
Rodrigo (á viscondessa)
Senhora viscondessa. Eugenia, até logo. (beija-a. A viscondessa aperta a mão dos dois que sahem).
SCENA XIV
D. EUGENIA E A VISCONDESSA
Viscondessa
Teve carta da prima condessa?
D. Eugenia
Sim, minha snr.ª
Viscondessa
Jantou hontem comnosco um homem sobremaneira excentrico. É esse Jorge de Mendanha de quem lhe falla a prima. É portuguez, e vem de Inglaterra recommendado ao conde--coisa singular!--por um lord de tal que o primo conheceu em Londres. Disse que estivera em Lisboa ha bastantes annos, e fallou de familias da primeira ordem como quem as conhecia muito. Perguntei-lhe, quando se tomava o café, se tinha conhecido, nos bailes do marquez de Vianna, Francisca de Almeida, que sou eu. Fitou-me com um sorriso indescriptivel, e disse: «conheci». E se a visse hoje, conhecel-a-hia?--perguntei eu «Graças á solidez da sua belleza, (disse elle) a viscondessa de Pimentel é ainda a depositaria da insigne formosura de Francisca d'Almeida». Não podia dizer uma amabilidade com tanto e tão delicado espirito, pois não? Ha não sei que de puro parisiense n'isto, un beau trait d'esprit não vulgar em portuguezes, acha?
D. Eugenia
Sim... Este amigo do Rodrigo conheceu-o na America ingleza, e diz que elle é velho, mas muito romantico... (sorrindo).
Viscondessa
Velho?! não, minha snr.ª.. (Vê-se ao fundo o visconde). É homem de quarenta e poucos mais; mas V. Ex.ª ha de vêr um gentleman, um distingué, un homme à bonnes fortunes como lá se diz.
SCENA XV
AS MESMAS E O VISCONDE
Visconde (com mal reprimido azedume)
A mulher de meu filho não sabe francez, snr.ª viscondessa.
D. Eugenia
Ah! o pae!.. Estava ahi!
Viscondessa
Com effeito! é possivel que eu tenha o tão desejado jubilo de vêr o snr. visconde!? Ha que infinitos annos o não vi! Que doce surpresa!.. mas, ao mesmo tempo, (com a mão na fronte, pensativa) que turbilhão de recordações melancolicas! Vê? não posso vencer a commoção! (Leva o lenço aos olhos) .
Visconde (sorrindo)
São os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha snr.ª? Ainda bem que V. Ex.ª me não sensibilisa com o espectaculo pungente da decadencia, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Pois creia que padeço infinitamente, visconde. Fóra de Lisboa, recobro forças e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta d'isto; Lisboa está estupida; a vida d'esta sociedade é a proza chilra das sociedades gastas, sem feição, toda safada em relevos, um cancan, uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa do nosso tempo...
Visconde (com intenção ironica)
A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr.ª...
Viscondessa (sem attender á interrupção)
Resolvi sahir instada pelo primo Travaços. Vim, e sinto-me melhor. Acho certa novidade nos costumes, nas maneiras, no ensemble da vida portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr.ª como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me dessem occasião de vêr a V. Ex.ª
Visconde
Muito grato ao obsequio...
Viscondessa
Não me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? Não quer saber de alguem?
Visconde
Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dirá V. Ex.ª? Umas morreram, outras envelheceram. Não me parece aprazivel o passearmos em um cemiterio a lêr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V. Ex.ª folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade.
Viscondessa
Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex.ª abafa o seu antigo espirito com o pezo dos crepes! Aqui está o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me ás experiencias agricolas. Ao fim de oito dias, snr.ª D. Eugenia, as minhas ideias eram pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde, trate de viver, e deixe á morte o cuidado de o apanhar, quando estiver distrahido. V. Ex.ª acha sensato estar-se a gente a vêr morrer todos os dias? Eu não. É uma doidice que não abre as portas de Rilhafoles, nem as da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo da sua especie dá cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas visões.
Visconde (ironico)
Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex.ª ideias funeraes, e usurpava á sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vêr assim. Minha querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae. Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe dizer. Remoce este animo arido, e não o deixe voltar á aldeia. E adeus, visconde. Até amanhã. Conversaremos muito... Ah! é verdade! Ó visconde, olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que lá me conheceu ha vinte e tantos annos...
Visconde
Eu já hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na America ingleza.
Viscondessa
Está no Porto.
Visconde
No Porto?!
Viscondessa
E vem ámanhã ao baile.
Visconde
Tenho certa curiosidade de o vêr.
Viscondessa
É extraordinario!
Visconde
Que singularidade são as do homem, viscondessa?
Viscondessa
É o incompris!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance. (O visconde solta um frouxo de riso) De que se ri, visconde?
Visconde
De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar...
Viscondessa
Espantar-se! de quê?
Visconde
Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex.ª pinta o homem, que, se nos conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel.
Viscondessa
Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!..
Visconde
E, se elle é maior de 50 annos, e finge o incompris, o incognito, o romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser ridiculissimo. Não me tente, minha presada snr.ª, que eu sou capaz de vir ao baile para não morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com uma aureola de mysterio.
Viscondessa (dando-lhe com a luneta no hombro)
Maganão! Cuida que toda a gente lhe ha de fazer cauda na via dolorosa da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos não affoguemos em diluvio de lagrimas. (Com intenção.)
Visconde (pensativo e abatido)
Eu é que não posso rir-me; mas sei que ha corações que não soffrem o pezo das consciencias que nada pezam.
Viscondessa
Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que não me esqueça furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando vinha subindo.
D. Eugenia
Sim, minha snr.ª, vamos colher quantas V. Ex.ª quizer.
Viscondessa
Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. Sahem.--(O visconde senta-se alquebrado).
SCENA XV
O VISCONDE E DEPOIS JOÃO
Visconde
Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da consciencia, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha... Estas allusões moraes e penetrantes resaltam ás vezes das consciencias mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado...
João (entrando com o «Commercio do Porto»; e, como não vê o visconde, que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)
Não enxergo ninguem. (Começa a lêr, e vae sentar-se n'outra poltrona, que tem as costas voltadas para a do visconde) Deixa-me vêr se ainda leio por cima. Acho que é inglez, isto. Será? Não me parece. Quem sabe lêr n'estes coisos é cá o meu primo Joaquim que já foi entregador ou redactor ou não sei quê d'uma trapalhada d'estas. (Lendo no alto da primeira pagina) Po, lí, po, lí tí, ca, in, ter, na. Politega eterna. Isto acho que é a respeito da religião, ou lá da eternidade do outro mundo. Vamos vêr o que diz dos governos: (Lendo na quarta pagina) Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando) Não é aqui. Ha-de ser mais abaixo, (lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro. Linguas de bacalhau! Isto é chalaça aos deputados... (O visconde tosse. João levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e sáe da sala derreando-se para não ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia por outra porta).
SCENA XVI
VISCONDE E D. EUGENIA
D. Eugenia (aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)
Como está triste! que tem, meu pae?
Visconde (erguendo-se)
Grande pezar de já ter sido alguma hora alegre, minha filha.
D. Eugenia
Parece qué a visita da viscondessa o contrariou.
Visconde (pegando do «Commercio», e lendo mentalmente ao mesmo tempo que conversa)
O conhecimento d'esta senhora não lhe convem, Eugenia. Estas mulheres, emancipadas da opinião publica aos vinte annos, não costumam ser as mais uteis amigas na velhice.
D. Eugenia
Amiga! Eu apenas a conheço, e não sinto a menor inclinação para ser amiga de tal senhora.
Visconde (lendo sempre. Declamação vagarosa)
Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa de as saber. Esteja de prevenção. Eugenia, acautele-se das mulheres que não tem outra virtude sabida senão a de murmurar dos vicios alheios. A viscondessa creio eu que não murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos de Lisboa. Além d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas amigas. O seu industrioso plano é dar a perceber que o vicio está por tal forma naturalisado que já não ha razão para espantos nem sequer para censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim sómente que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral são assim todas pouco mais ou menos. _(Suspende-se subitamente. Vivamente agitado, fixa attentamente o que está lendo, emquanto Eugenia se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se com grande exforço e disfarce. Depõe o jornal, e toma o chapeu. D. Eugenia tem reparado na commoção do visconde)_. Até já, Eugenia.
D. Eugenia
O pae está tão pallido!
Visconde
Pallido! Não sei o que seja!..
D. Eugenia
Sente-se doente?
Visconde
Não, minha filha... Isto são accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao jardim. Volto já. (Sáe).
SCENA XVII
D. Eugenia, (só)
Elle ía tão mudado e sobresaltado! E estava a lêr com tanta inquietação! Que seria? que viu elle n'este jornal?! (Pega do jornal e corre os olhos pela primeira pagina). Que é isto? (estremecendo) Este nome... Jacome da Silveira! (Faz menção de lêr agitadamente, e lê alto): Cego pela paixão feroz do ciume matou... Pois elle vive, meu Deus! Que commoção tão funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me traga desventuras! (Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de Villasboas! São estes os nomes!.. O desgraçado vive!.. Ainda o verei? E poderia amal-o, se o visse? Oh! não... Eu vejo sempre o cadaver d'ella... (Senta-se a soluçar).
SCENA XVIII
D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS
(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)
Rodrigo (reparando)
Estavas chorando, filha?
D. Eugenia
Estava.
Rodrigo
Porque? São as primeiras lagrimas que te vejo.
D. Eugenia
É verdade...
Rodrigo
Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal...
D. Eugenia
Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste.
Rodrigo (procurando no fundo do jornal)
No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creança?
D. Eugenia
Não é romance; é aqui. (Indicando-lhe o alto da primeira columna).
Rodrigo
Aqui na Correspondencia de Pariz? (Ella faz um gesto affirmativo) Pois que é? (Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis palavras, e depois lê): «Contar-lhe-hei um successo digno de attenção, e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia.» É aqui?
D. Eugenia
É.
Rodrigo (lendo)
«Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no Bois de Bologne, me mostrou um sujeito que ia passando sósinho, triste e vagaroso. E depois me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco mais ou menos, um homem de consideração, residente em Lisboa, de nome Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada Martha de Villasboas, cego pela paixão feroz do ciume, matou a espoza. Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que matára sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que não tinha obrigação, vontade, ou necessidade de declarar o crime da senhora morta, porquanto já estava castigada, e a memoria d'ella não esperava da sociedade estigma nem rehabilitação. Perguntado como é que se apresentava, respondeu: «Como homem que matou». Na qualidade pois de homicida voluntario com premeditação foi Jacome da Silveira encarcerado, julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em attenção não sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D. Martha de Villas-boas morrêra criminosa. O cumplice da adultera éra conhecido. Constava que o réo encontrára superabundantes provas do crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em não declarar o crime de sua mulher, a condemnação éra inevitavel, a não estar o jury, como não estava, á altura da tão infeliz quanto generosa alma do réo. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com que armar navio que o transportasse á Europa ou America do norte, a não querer antes levantar-se com o senhorio de Angola e proclamar-se rei d'áquem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentença; completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvará de soltura, passou ao coração da Europa, e nomeadamente ao Bois de Bologne, onde hontem o vi. Tanto quanto de relance o pude vêr, deixou-me uma impressão melancolica. «N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a pagina que escreveram lagrimas choradas por espaço de 24 annos. Na historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia». (Declama): Mais nada. Saibamos agora porque choraste, Eugenia?
D. Eugenia
Porque chorei!? não foi tão infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!
Rodrigo
Triste? decerto foi; mas não era justo que fosse alegre. Esta mulher deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um coração honrado; elle matou um corrupto. Não ha comparação racional entre os dous delictos. Se tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a condemnação a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam revelar a piedade abraçada á justiça; mas chorar pela criminosa que...
D. Eugenia (atalhando-o)
Tens razão... Perdôa ás minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste comprehender a desgraça d'esse infeliz.
Rodrigo (pausadamente)
Pois não é assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no coração; depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo; depois o horrendo trance da morte com as angustias infernaes que deviam lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentença; depois vinte annos sem patria; e finalmente...
SCENA XIX
OS MESMOS E O VISCONDE
Visconde
Que estavas tu dizendo tão commovido, Rodrigo?
Rodrigo
Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. (Mostra-lh'a no Jornal).
Visconde
Já vi.
D. Eugenia
Parece-me que o pae tambem a leu com amargura.
Visconde
Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a.
D. Eugenia
Sim? eu vou. (Sáe).
SCENA ULTIMA
RODRIGO E O VISCONDE
Visconde
Pungiu-te essa noticia, Rodrigo?
Rodrigo
Eugenia é que estava chorando de compaixão da mulher que o marido matou.
Visconde
Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa espoza como Eugenia.
Rodrigo
Então morreu innocente?
Visconde
Não.
Rodrigo
N'esse caso, o confronto não lisongêa minha mulher...
Visconde
Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando sahiu, sentia a febre da paixão que antecede a morte do brio e do pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. Lê as ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde começa: Na historia ha duas victimas e...
Rodrigo (lendo)
«Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia.»
Visconde (commovido até ás lagrimas)
Vês os meus olhos enxutos? Repára, filho, que eu estou chorando...
Rodrigo
Está; mas que querem dizer as suas lagrimas?!
Visconde
Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, é... teu pae. (Rodrigo estremece. Corre o panno).
FIM DO PRIMEIRO ACTO.
ACTO SEGUNDO.
A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde se dança. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano.
SCENA I
VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOSÉ DE SÁ
Viscondessa
Surpreza assim! José de Sá n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze dias no Chiado, e não me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa, com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu companheiro d'hotel, sem eu saber! Há quantos annos o não encontro em bailes, conselheiro? Deixe-me vêr se me lembro... Foi, foi, foi ha...
José de Sá
Ha 22 annos, minha senhora.
Viscondessa
Mas que maravilhosa conversão foi esta? como é que V. Ex.ª depois de duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a estes pedaços modernos da Babilonia antiga?
José de Sá (sorrindo)
Milagres d'amôr, snr.ª viscondessa, acho eu. Ha amôres que rebentam no inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como não achem coração onde se hospedem dignamente, recolhem-se á cabeça, e tamanhos estragos lá fazem que não é raro vêr em bailes muitos doudos que trazem nos miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de cabeça de preto.
Viscondessa
Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!
José de Sá
Pois está claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, são tudo sequeiros e conservas... O coração, como eu o sinto, é verdadeiramente uma betarraba já curtida...
Viscondessa
Pois sim mas não zombe do amor, que não perdôa sarcasmos... Olhe que a occasião é de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas... (apontando para as senhoras que vão passando).
José de Sá (mirando-as com a luneta)
É verdade. Bem vejo. Ó minha querida snr.ª viscondessa, defenda-me com o seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.
Viscondessa
De todas.
José de Sá
De todas? pois tambem V. Ex.ª terá a crueldade de não poupar uma antiga victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado d'el-rei nosso senhor Dom João V.
Viscondessa (ironica)
E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fóra dos bailes!
José de Sá (rapido)
Para o não perder, minha snr.ª.
Viscondessa
Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que sáe bronca dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito, e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vêr. Entre por essas salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental. Espirito! Foi tempo. Não ha hoje em dia quem saiba conversar cinco minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bôcca.
José de Sá
Espirito de papoulas, não, minha snr.ª? Excellente coisa! Eu durmo ha muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez dos anjos pelo sal dos politicos.
Viscondessa
Ai! politicos! não me falle em politica que me estorce os nervos! Pois não sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez ir a Setubal dirigir as eleições contra o governo?
José de Sá